Quarto maior produtor de gás natural do país e o segundo em reservas totais dessa matriz energética, o Espírito Santo se destaca no setor, que promete ser uma alavanca para o crescimento da economia capixaba nos próximos anos.
A mudança de regulação e os projetos planejados nesta área criam condições favoráveis para o futuro do Estado, entre elas o aumento do PIB e das receitas tributárias, além do fortalecimento do mercado de trabalho e da cadeia de bens e serviços.
Com as transformações que estão por vir, o Instituto de Desenvolvimento Educacional e Industrial do Espírito Santo (Ideies), da Federação das Indústrias (Findes), produziu um mapeamento com a legislação, o funcionamento e a conjuntura do setor gasífero.
Chamado de "Gás Natural: Desafios e Oportunidades para o Espírito Santo”, o estudo - o qual a coluna teve acesso em primeira mão - aponta que os investimentos previstos para o Estado neste segmento vão ser capazes de incrementar, por ano, o PIB em quase R$ 1 bilhão, criar 16 mil empregos e expandir a arrecadação de impostos em R$ 64 milhões.
Para chegar a esses dados, a equipe do Ideies - liderada por Marcelo Saintive - fez o levantamento dos projetos que estão previstos para o Estado até 2029. Ao todo, são R$ 11,39 bilhões em investimentos na área de gás. Desse volume, R$ 11,09 bi foram apresentados pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), que prevê o desenvolvimento da infraestrutura, com a construção de gasodutos de escoamento e de transporte, além da viabilização de duas unidades de processamento de gás natural (UPGN). Os demais R$ 300 milhões consideram anúncios já realizados pela ES Gás, como o da construção de um gasoduto de distribuição em Linhares.
O diretor-executivo, Marcelo Saintive; a gerente do Observatório do Ambiente de Negócios, Gabriela Vichi; e os analistas de Estudos e Pesquisas do Ideies, Vanessa Avanci e Nathan Diirr, explicaram à coluna que a medição do impacto socioeconômico foi feita a partir da Matriz Insumo-Produto (MIP), uma ferramenta do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN) para analisar a estrutura econômica (oferta e demanda) de forma desagregada.
"Avaliamos qual o choque de investimento que os R$ 11,39 bilhões podem gerar para a nossa economia nos próximos 10 anos na área de gás. Então, criamos um novo dado. Fizemos a distribuição ano a ano e chegamos à conclusão que, para cada R$ 1,1 bilhão em projetos, serão acrescidos anualmente R$ 956,9 milhões no PIB", detalha Vanessa Avanci.
A economista explica que o aumento da riqueza produzida no Estado vai ser possível a partir da demanda que será gerada, como com a necessidade da fabricação de máquinas, equipamentos e produtos de metal, com atividades de comércio e serviços, além da fabricação de caminhões e equipamentos de transporte, fora o estímulo em outros setores.
Na tabela abaixo, é possível verificar os impactos econômicos no PIB, nos empregos e nos impostos a partir de três cenários. O cenário 2 é o já citado, que considera um investimento anual da ordem de R$ 1,1 bilhão e os seus respectivos desdobramentos, como a geração de 16 mil empregos. O estudo traz ainda o cenário 1, mais conservador, com um investimento de R$ 600 milhões por ano, e o cenário 3, com uma perspectiva mais otimista, que leva em conta investimentos de R$ 2,3 bilhões anuais.
DEMANDA POR GÁS NO ES PODE CRESCER QUASE 300 MILHÕES DE M³
Vanessa Avanci chama a atenção ainda para o potencial de crescimento da demanda gasífera caso o novo marco regulatório do gás natural seja aprovado e o preço do produto se torne mais competitivo no mercado.
"Com a queda do preço - e governo federal estima que seja de 40% -, o Espírito Santo poderia ter um aumento imediato de 287 milhões de metros cúbicos na demanda de consumo, o que representa um choque de R$ 263 milhões na Matriz Insumo-Produto do Estado para este setor"
"Só o fato do marco regulatório mudar o preço, isso já gera resultado no PIB e nas riquezas pelo lado da demanda, como a Vanessa mostrou nos números", complementa Saintive.
Para se ter uma ideia, o consumo de gás natural no Estado em 2019 foi de 897,9 milhões de metros cúbicos, sendo a indústria a maior consumidora, com 69,2% do volume total. Na sequência, a demanda veio da geração elétrica, com 23,6%, e do consumo automotivo, com 3,86%. O segmento residencial representou apenas 0,28% do bolo total.
Vale destacar que no Estado foram contabilizados, em 2019, 60.786 clientes. Desses, 60.013 residenciais e apenas 51 industriais. Essa diferença entre o volume de consumo e de clientes reforça como essa matriz energética é importante para o processo produtivo das empresas.
QUEDA NO PREÇO VAI ESTIMULAR SETORES DE CERÂMICA, CELULOSE E SIDERURGIA
As mudanças de regras, a busca por um setor gasífero menos concentrado e mais competitivo, além do preço do gás mais baixo, podem estimular a atração de empresas para o Estado ou mesmo contribuir para a expansão dos negócios já instalados por aqui.
De acordo com o analista de estudos e pesquisas do Ideies Nathan Diirr, setores como os de vidro, cerâmica branca e politização, siderurgia, pelotização de minério de ferro, alumínio, papel e celulose e químico têm em suas plantas industriais o uso intensivo do insumo.
"O custo do gás natural para essas empresas pode variar entre 20% a 40% do custo total. Então, reduzir o valor do insumo pode tornar essas indústrias mais competitivas e contribuir para a ampliação de negócios no Estado"
Diirr frisa que além das mudanças no marco legal do setor e da redução do preço do gás, há dois pontos que colocam o Espírito Santo em condição de vantagem sobre outros Estados. Um deles é o modelo de entrada e saída no custo do transporte. Caso essa regra seja aprovada, a tendência é que o insumo seja menos custoso para os capixabas, uma vez que estamos próximos às reservas de gás.
"Além do modelo de entrada e saída, o Espírito Santo é o único entre os entes federativos que tem uma companhia de gás que já nasceu com um contrato de distribuição alinhado com as propostas do novo mercado, comprometido com três pontos: aberto, dinâmico e competitivo."
Para o diretor-executivo do Ideies, Marcelo Saintive, o estudo "Gás Natural: Desafios e Oportunidades para o Espírito Santo" é uma forma da instituição contribuir para o debate e mostrar, através dos dados, como a agenda regulatória do setor de gás natural pode ajudar no desenvolvimento do país e, em especial, do Espírito Santo.
"Pelo estudo fica bem claro de que forma as novas regras vão impactar o mercado de gás e a economia capixaba. Estamos mostrando não só o que precisa ser feito e aprovado em termos de medidas regulatórias, como também o impacto com o choque de investimento e de demanda"
O estudo do Ideies, que traz um raio-x do setor nacional e local do mercado gasífero, é uma importante ferramenta para o debate. Há alguns anos - desde quando se iniciaram as discussões sobre um novo marco regulatório -, especialistas, lideranças empresariais e políticas vêm falando sobre os reflexos que o segmento pode ter para a economia. Mas, ter em mãos números e informações que ajudem a entender o que está em jogo, torna a "briga" por avanços nessa área muito mais qualificada.
Agora, o próximo passo é utilizar esse levantamento em favor do Espírito Santo. Entidades, governo estadual, bancada capixaba e outros atores relevantes nesse processo terão mais subsídios para conhecer e debater o tema. A teoria está lançada. Vamos ver como e quem vai colocá-la em prática.