Uma jovem escritora me pergunta o que penso que seja a imortalidade, em uma Academia de Letras. Bem, as Academias são comunidades muito antigas. Atravessaram os séculos, desde os tempos daqueles passeios filosóficos de Platão, acompanhado de seus discípulos, caminhando por um terreno perto do cemitério de Atenas onde estava a estátua do herói Academos, guarnecida por cem oliveiras e onde tinha sido erguido um altar à deusa padroeira daquela cidade.
Teria sido por essa estreita proximidade com os deuses gregos, que os acadêmicos passaram a ser considerados imortais como eles? Pretensiosamente, achavam que seus conhecimentos, ações e saberes estavam colocados acima do pensamento comum dos demais habitantes de Atenas e deveriam fazê-los lembrados eternamente? Jamais saberemos.
De toda maneira, o lema da imortalidade foi adotado pelas academias, a partir da Academia Brasileira de Letras, que seguiu o modelo do selo oficial “À la immortalité”, da Academia Francesa, mandado fazer no século XVII por Richelieu, o cardeal retratado em “Os três mosqueteiros”, de Alexandre Dumas. Assim, tratar os acadêmicos por “imortais” é apenas uma amostra das tradições que persistem nas Academias de Letras.
Por vezes esse tratamento provoca incômodo ou é levado ao terreno da jocosidade. Haja vista a lenda de que o poeta Olavo Bilac, perguntado por um jornalista sobre a razão de os acadêmicos serem imortais, respondeu: “Porque não têm onde cair mortos”.
Das tradições acadêmicas, porém, muitas já foram quebradas. Mudanças foram sendo introduzidas, como a admissão de mulheres, que, nos tempos de Platão, eram apenas duas: Asioteia de Filos e Lastênia de Mantineia, disfarçadas de homem, é claro.
Acontece que, no século XXI, as mudanças são profundas e aceleradas. Atuam como um fluxo permanente sobre as comunidades humanas. São capazes de transformar as culturas e as sociedades. Como conviver com tantas transformações radicais?
Assim, respondendo a minha preciosa inquisidora, penso que a questão principal de comunidades tradicionais, como as Academias de Letras, hoje, não é a imortalidade. Talvez seja a habilidade de lidar com as mudanças sem que os rastros da tradição fiquem perdidos.
É um engano cair no conservacionismo e dizer “é assim que sempre foi e sempre será”, mas é um engano também jogar o passado para escanteio e achar que a novidade deve ser tudo.
O desafio é manter o equilíbrio entre essas duas probabilidades. O mais plausível talvez seja conservar a memória dos conhecimentos, ações e saberes que atravessam os séculos, sem renegar as escolhas e os dilemas do tempo presente.