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Crônica

A perplexidade humana diante da tecnologia

A nós, os chamados humanos, cabe uma adaptação realista e consciente daquilo que estamos vivendo. Do contrário, há o risco de ficarmos perdidos em um passado que rescende a bolor cultural

Publicado em 14 de Janeiro de 2025 às 00:00

Públicado em 

14 jan 2025 às 00:00
Bernadette Lyra

Colunista

Bernadette Lyra

blyra@uol.com.br

Por cerca de 70 mil anos, os primeiros seres humanos viveram na África. Depois se dispersaram por todos os cantos, eliminando outras espécies, como os neandertais. Organizaram-se em pequenas sociedades de coletores e caçadores, começaram a viver em tribos, a constituir uma cultura cognitiva. De lá para cá, muita água rolou por baixo da ponte chamada “civilização”.
Não se podem obliterar as mudanças comportamentais ocorridas por séculos e séculos. Sobretudo aquelas que estamos vivendo agora, quando as tecnologias avançam como um tsunami sobre a humanidade. Ninguém em sã consciência pode negar coisas como Inteligência Artificial, telescópios espaciais, redes sociais da internet e outros penduricalhos que, em plena era digital, acompanham a chamada pós-modernidade. Queiramos ou não, fazem parte da existência dos seres que respiram (ainda) sobre nosso destemperado e devastado planeta.
Vocês sabem que as gerações de criaturas terrestres se sucedem umas às outras com a velocidade de foguete espacial, ou melhor, com a velocidade da luz, que é a coisa mais rápida de que se tem notícia. Cada geração reage à imersão em ambientes de sua própria existência.
Uma geração é o conjunto de pessoas nascidas em uma mesma época, influenciadas por um determinado contexto ambiental e histórico. Por exemplo, a geração beta nasceu a partir do dia 1º. de janeiro de 2025 e vai conviver plenamente com a expansão da IA, que aliás já está em pleno uso pela geração alpha, nascida a partir de 2010. E daí para a frente.
Em todas as culturas do mundo, sempre houve e haverá perda de certas competências que, invariavelmente, são substituídas por outras. Não dá para pisar no breque, como se diz em minha terra, ou esquecer “que o novo sempre vem”, como Elis Regina canta. A nós, os chamados humanos, cabe uma adaptação realista e consciente daquilo que estamos vivendo. Do contrário, há o risco de ficarmos perdidos em um passado que rescende a bolor cultural ou imersos em uma inútil e eterna batalha que opõe gerações, nascidas em ambientes de vertiginosas mudanças, a oligarquias políticas e sociais arraigadas ao poder e temerosas de perder o controle sobre aqueles que julgam ser seus subordinados.
É certo que toda e qualquer manifestação sobre o futuro da humanidade é parcial e incerta. Nenhuma reflexão oferece certezas, nenhuma atualiza todas as possibilidades. No entanto, talvez reflexões sejam o único instrumento que a gente tem para nunca esquecer que fazemos parte desta tribo mutante que se intitula “homo sapiens”. E que, hoje, mais que nunca, está imersa em perplexidades.

Bernadette Lyra

E escritora de ficcao e professora de cinema. Escreve as tercas-feiras sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporaneos

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