Os seres humanos são poços de fantasias. Mas quem faz literatura sabe que não basta verter fantasias no papel ou na tela do computador. Para que os versos de um poema provoquem sensibilidade, para que uma personagem de conto ou romance tome forma, para que uma ação narrativa se desenrole, é preciso que a imaginação produza uma transformação dos fatos, dos acontecimentos, dos sonhos, das realidades.
Antes de tudo, faz-se necessária uma certa liberdade mental. A imaginação tem de interrogar, provocar, conceber alternativas da vida, talvez até da própria vida de quem escolheu criar com as palavras. Quem escreve tem de estar livre, para jogar com a noção de ambiguidades, paradoxos e contradições que envolvem a existência de tudo. Tem de considerar que o dia pode ser noite; o amor pode ser ódio; a alegria pode ser tristeza; a felicidade pode ser infelicidade; o pecaminoso pode ser divino. Nada deve ser considerado intocável, imutável ou sagrado, diante da força da imaginação. Tudo pode ser transformado em seu oposto ou renomeado e chamado por outro nome. Porque escrever literatura é renomear.
Talvez seja esse o maior problema quando se trata de escrita literária feita por mulheres. Eu explico essa opinião. Através dos séculos, boa parte dos poemas e da ficção feminina foi associada a narrativas leves e intimistas, cravadas de dor, de sentimento, de uma lírica da sedução. Quando não, carregadas de isenção, assexualidade e serenidade, como se uma escritora estivesse sempre a se defender da opinião crítica masculina e temesse ser mal-entendida ou comprometida com os desvios da moral social.
Em geral, escritoras cuidavam de publicar livros que escondessem sua humanidade e sua paixão. Vide Virgínia Wolf que domava seu ardor debaixo de um tom frio e gelado. E Clarice Lispector, que tinha agudo senso da vigilância da crítica e não expunha seu lado mais feminino, coisa que só mudou com “A hora da estrela”, publicado no ano de sua morte.
É inegável que vivemos um tempo em que, graças às lutas das feministas e às mudanças ocorridas nos anos 60/70, o mito da passividade feminina desmoronou. Mas o processo de transformação não é instantâneo. Não é como cruzar uma fronteira, você voa ou dá um passo e está em outro país.
A história da luta e da autodeterminação das mulheres escritoras continua. Se escrever literatura é renomear, a questão é como renomear o mundo de modo a subverter as velhas e cansadas concepções de literatura que permaneceram por séculos e ainda permanecem, por vezes escoradas disfarçadamente na filtragem do discurso patriarcal.