Vocês hão de saber que 25 de dezembro - a data escolhida pelo Papa Julio I, no ano de 350, para marcar o nascimento de Jesus - era o dia em que se festejava Saturno, o deus que adorava devorar seus tenros filhotes recém-nascidos, além de outras implicações pagãs, mais ou menos libidinosas, feitas para comemorar o solstício de inverno.
Toda essa história de Natal começou no hemisfério norte, bem longe da sufocante nuvem de calor que enfrentamos no verão aqui, nós, viventes abaixo da Linha do Equador. Mas que fazer se nada se perde e tudo se transforma neste mercado imenso em que brotou e vicejou o “homo sapiens”? Somos o resultado confuso de tantos enganos, tantas falácias, tantas embromações com que a espécie humana vem se estruturando ao longo de séculos.
Alguns hão de dizer que estou sendo amarga, que é hora de canções e sorrisos, de bimbalharem os sinos, das famílias se reunirem em volta da mesa da ceia com direito a peru assado e farofa, de crianças felizes à espera dos presentes que o velho Noel lhes traz et cetera. E hão de me lembrar que, apesar do sufoco, das perdas, do desconsolo que marcaram este 2021, vale reacender o pavio já gasto da vela da esperança.
Sim. Vocês têm razão. É quase Natal. Mas tudo continua como antes. O egoísmo, a ganância, o maldizer e a esperteza continuam por trás das lâmpadas coloridas, das fitas prateadas, dos gorros vermelhos de papais-noéis, dos galhos de azevinhos, enfim, de tudo que se mostra sob a capa da fraternidade, igualdade, solidariedade e tantas outras “ades” que nesta época pipocam por aí como falsos diamantes.
Vejam este exemplo: vocês se lembram que muito reclamei da ocupação indevida do Viaduto Caramuru, no Centro de Vitória, usado como estacionamento, com guardador particular e tudo? Muitos se solidarizaram com tais reclamações. E graças sejam dadas à Prefeitura, que melhorou em muito a iluminação do lugar.
Agora, até uma placa de estacionamento proibido foi ali colocada. Mas os donos dos automóveis ignoram a placa. Continuam a estacionar no local em fileiras, da manhã à tardinha. E o senhor guardador deixou de plantar o banquinho em que se sentava para administrar a chegada dos “fregueses”, no entanto se mantém pelos arredores (só não posso afirmar se ainda controla o fluxo dos privilegiados que ocupavam aquele “estacionamento”).
Ou seja, é quase Natal, porém o descaso e o desrespeito continuam a atingir um dos nossos monumentos históricos mais preciosos e heroicos, apesar dos esforços que vêm sendo feitos para preservá-lo.