Muita gente pergunta para que serve uma Academia de Letras. De modo geral, penso que serve para juntar pessoas diversas, que fazem os mais variados tipos de literatura em uma determinada língua, e colocá-las dentro de uma espécie de caixa comum. Alguns dirão que essa é uma definição por demais simplória. Outros, que essa metafórica caixa é meramente ornamental, quem faz literatura não precisa estar dentro dela.
Vou respeitar a querela. E os querelantes: tanto os que estimam elaborar conceitos sublimes quanto os que gostam de pôr a pimenta da dúvida em todo e qualquer ensopado que cheire à cultura. Nunca fui muito boa nessa história de tentar definir qualquer coisa. Muito menos uma coisa tão ancorada no tempo.
Vocês sabem (pois são muito sabidos, como dizia meu Mestre Guilherme) que o termo academia vem das profundezas da História. Começou com Platão, que resolveu homenagear o grego Akademo, pois as reuniões que fazia com os discípulos se davam nos jardins que, um dia, tinham pertencido ao herói dito cujo.
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Na Academia de Platão, o conhecimento, as ações, os saberes eram debatidos, trocados, misturados. Não, considerados objetos a serviço da vaidade ou qualquer veleidade de um só indivíduo. Essa é uma herança para as Academias de Letras de hoje: considerar o resultado da soma total das obras literárias e linguísticas de cada um dos membros, produções contemporâneas e atuais ou memoriais e preservadas dos pais fundadores e dos antepassados.
Nesse quesito, a atitude de mútua confiança e respeito iguala confreiras e confrades, sem distinção de tempo, sexo, gênero, idade, preferências políticas ou procedência. O que não invalida o espírito de subjetividade na intersubjetividade, em que cada qual reconhece seu próprio lugar de valor e o lugar de valor do outro. É a aceitação de uma condição do merecimento pessoal incluído no merecimento coletivo.
Ao longo dos séculos, formaram-se grupos acadêmicos, para além daqueles com interesse literário. Mas o desejo mais legítimo de quem participa de uma Academia de Letras ou de qualquer outra denominação e quaisquer outros objetos de estudo: artísticos, jurídicos, maçônicos etc., deveria ser o pertencimento a uma comunidade constituída por elos desiguais (porque únicos em si), mas unidos na igualdade de um só objetivo.
E, sobretudo, uma comunidade sempre pronta a aprender e a se reinventar. Afinal, segundo Yuval Noah Harari, aprender e se reinventar são habilidades necessárias para garantir a sobrevivência das comunidades humanas, no século XXI e (quem sabe?) por muitos e muitos séculos adiante.