Vocês já ouviram “ver com quantos paus se faz uma canoa”, sempre que se adverte alguém para alguma coisa? Pois isso me faz pensar com quantas palavras se faz uma escritora ou um escritor. Sem a menor pretensão de bancar a entendida, vou dar alguns pitacos. Em primeiro lugar, quem se habilita a fazer literatura vive pela imaginação e se alimenta dela. Em segundo, escritoras e escritores são bichos diferentes entre si.
Mas isso não importa. Escritora ou escritor de verdade (ou melhor das mentiras da ficção) são criaturas que consideram a linguagem como seu centro e território profissional. São a antena da raça (tudo bem que Ezra Pound disse isso só de poetas, mas cá como lá más fadas há). Portanto, nada melhor que esmiuçar as escrituras para saber como a tribo literária ideologiza o mundo. O termo ideologia não está aqui na perspectiva marxista, que supõe a ilusão de que existe um ponto de vista dominante sobre os feitos e os fatos e os pensamentos de uma pessoa ou de uma nação. Está sendo usado no sentido de recuperação dos modos de figuração de uma certa cultura humana.
A humanidade é um círculo vicioso a que estamos acorrentados, mordendo a própria cauda, como dizia Beckett. Vivemos tempos confusos. Há mais coisas no ar de que discos voadores, misseis e aviões de carreira. Neste milênio, a altíssima tecnologia faz pensar no delírio de Goya: "El sueño de la razon produce monstruos". Hoje, a vida vai muito depressa. Os meios de expressão que a cultura tem posto à disposição da humanidade agora são fast food. Na caçarola do tempo, viraram uma imensa omelete.
O mundo encolheu. O espaço se modificou. Em um mundo sem fronteiras, o sujeito, com sua orgulhosa noção de consciência, acaba se tornando uma máscara. Nessa mutação do espaço e do tempo (coisa que a Física Quântica atesta), acabaram-se as seguranças, as instituições, os mitos literários, artísticos e “otras cositas mas”. As formas literárias que agora habilitam escritoras e escritores a transformar o imaginário em escritura parecem destinadas à impureza, à reciclagem do passado, à evidência intencional da ilusão ou do jogo e ao simulacro.
A escritura de hoje tem a perversão da mistura dos códigos e do esfacelamento dos gêneros, não deixa pedra sobre pedra da antiga inocência que separava romance de conto, conto de crônica, crônica de poema etc. Posso estar enganada, porém o que parece melhor caracterizar quem verdadeiramente faz da literatura o sal de sua vida e sua razão de ser é a articulação, organizada em palavras, entre os fenômenos emergentes da fantasia humana, do imaginário e da ficção.