Aí vem a moça e me pergunta como escrever sobre uma personagem do passado. "O passado é o legado dos mortos. Aos vivos só cabe conjecturar", respondi. Não sei se a moça ficou satisfeita. Mas a verdade é que quem escreve ficção não sabe muito bem o que fazer com esses conhecimentos vagos que temos do passado.
Talvez os historiadores saibam. Historiadores dão conta de coisas que povoam a memória. Arquivos, requerimentos, listas nominativas de vilas, registro de obras, rol de escravizados, certidões, testamentos... nada disso lhes é estranho. Para quem escreve ficção, ocorre o contrário. Escrever ficção é contar apenas com a fantasia e com o risco.
Para vocês terem uma ideia, vou contar uma pequena história. Certa ocasião, em um café da cidade de Faro, um pedaço de pano carmim foi-me oferecido. Disse o vendedor que era um fragmento do manto de uma princesa do século XII, casada com um potentado mouro. Oriunda do Norte, a princesa teria trocado sua gelada terra natal pelo calor português do Algarve. E, com saudades da neve e do frio, estava ela a morrer de desgosto. Então, o apaixonado marido ordenou que fossem plantadas mil amendoeiras, nos campos em frente ao castelo. Assim, ao abrirem suas flores alvíssimas, as árvores se fingiriam da neve pela qual suspiravam os lacrimosos olhos da bela.
É claro que eu sabia que era enrolação usada pelo hábil vendedor e que aquele pedaço de pano a nunca frequentara os ombros da dita princesa e mais parecia ter sido comprado em uma loja de badulaques dali mesmo. Talvez até mesmo a princesa não passasse de uma ilusão criada para enganar compradores. Mas, encantada, fui levada pela imaginação. E, sem discutir, comprei o fragmento surrado de seda.
A Literatura é feita de histórias, como essa que lhes contei. No entanto, a Literatura não é a História (assim, com H maiúsculo). Quem escreve ficção e necessita usar o conhecimento sobre o passado tem de passar por formas não narrativas da História. Tudo serve: boatos, fragmentos, lembranças (falsas ou verdadeiras), imagens, intuições e outras coisas mais.
A verdadeira questão por trás de saber o que fazer com nosso conhecimento sobre o passado não é a questão mais ou menos técnica de saber como representar o passado e escrever sobre ele. É preciso saber o que imaginamos que o passado seja. Ou melhor, para quem escreve ficção, a questão sobre o passado é tomada como matéria crua, antes mesmo de pensarmos sobre as formas possíveis de sua representação, como ensina o professor Hans Ulrich Gumbrecht, no livro “Em 1926”, do qual a leitura recomendo à moça que me interpelou.