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Crônica

Do sentimento de estar em abril

Sempre penso no sentimento de uma certa dama que um dia embarcou em uma caravela, deixou Portugal e veio para o Brasil, um lugarejo distante, perdido às beiradas do rio do Espírito Santo

Publicado em 11 de Abril de 2023 às 00:20

Públicado em 

11 abr 2023 às 00:20
Bernadette Lyra

Colunista

Bernadette Lyra

blyra@uol.com.br

Literatura
Imagem retirada da capa do livro "A Capitoa", de Bernadette Lyra Crédito: Reprodução
O poema “Terra Desolada”, de T.S. Eliot, começa assim: “Abril é o mais cruel dos meses”. Sempre senti esse verso como um paradoxo. No hemisfério em que o poeta vivia, abril é o mês que vem depois do gelo do inverno. É quando o planeta começa a florir. Acontece que cada vez que vejo esse desolador início, penso que esse poderia ser o sentimento de uma certa dama que um dia embarcou em uma caravela, deixou Portugal veio para o Brasil, para um lugarejo distante, perdido às beiradas do rio do Espírito Santo.
Isso foi no ano de 1573. Era abril. A dama se chamava Luiza. Até hoje, ninguém se arriscou a afirmar qual o seu sobrenome. Grinalda, Grinaldi ou Grimaldi. Estava casada com Vasco Fernandes Coutinho, o filho bastardo de um fidalgo, que tinha o mesmo nome do pai e era o herdeiro de uma capitania além-mar. Muitos anos depois, quando o marido morreu, deram à viúva um oficial de ordenança e a deixaram governar por uns tempos.
Dizem que, então, os fidalgos, os padres, os noviços, os aventureiros, os ouvidores, os meirinhos, os juízes de vara, os escrivães, os oficiais da fazenda, os burocratas dos campos e todos os moradores das vilas, dos povoados e das terras no entorno a chamavam de “a Capitoa”. Dizem que também desse modo a denominava a ralé dos escravos, os colonos, os peões, os indígenas das aldeias fincadas nas praias e os selvagens emplumados que habitavam muito além das montanhas, em pleno sertão.
O passado caiu sobre a dama Luiza como um pesado manto de sal. As duas ou três linhas que a mencionam estão sempre metidas nos feitos dos homens como apêndices ornamentais. E nem mesmo o gesto de revirar papéis, escarafunchar registros, espanejar o mofo, esfregar o polegar no indicador para eliminar a poeira cor de baunilha, depositada em prateleiras e caixas de arquivos, garante que, num passe de mágica, naus, ventos, medalhas, santinhos, procissões, relicários, escapulários, canhões, alabardas, punhais, arcabuzes, banquetes, jaculatórias, animais, curandeiros, guerreiros, bastardos, desorelhados, degredados, silvícolas, frades e não sei o que mais vão pular diante de nós, oferecendo-nos, meigamente, sua face.
Talvez a Capitoa tenha sempre lamentado o tempo em que deixou o conforto de sua casa e sua terra. Talvez, como no poema, aquele abril tenha sido cruel. Nada sabemos, de fato. A história das mulheres se acaba no esquecimento, em cinza e em pó. Mas se a história da vida da dama Luiza acaba por perder-se no oblívio e no tempo, nada impede que ela exista no nosso imaginário. Feita em fábula, em devaneio e em ficção.

Bernadette Lyra

E escritora de ficcao e professora de cinema. Escreve as tercas-feiras sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporaneos

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