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Perda

Elza Soares e o acaso objetivo na vida, na morte e na arte

Não deixa de ser intrigante pensar que no caso das mortes de Elza e Garrincha (e em outros casos também) a casualidade das datas provoca a imaginação, sobretudo diante do trançado de amores e dores da união dessas duas criaturas

Publicado em 01 de Fevereiro de 2022 às 02:00

Públicado em 

01 fev 2022 às 02:00
Bernadette Lyra

Colunista

Bernadette Lyra

blyra@uol.com.br

Elza Soares em foto para capa de livro da editora Leya
Elza Soares em foto para capa de livro da editora Leya Crédito: Divulgação | Editora Leya
O rol de perdas que vem cobrindo o mundo de luto se torna mais conhecido e mais próximo pela ação instantânea da internet. A morte de Elza Soares é um exemplo disso. Mesmo quem nunca viu a cantora ou nunca se interessou por ela se envolveu na onda de sentimento que se esparramou pelas redes sociais e varreu o país de norte a sul. Não bastando tanto sofrimento com a pandemia e com as circunstâncias que se instalam em torno da doença, era como se tivéssemos perdido um elo com o imaginário sobre histórias de superações e sucessos de que tanto nossa gente precisa para sobreviver nestes tempos difíceis.
Para além da comoção nacional, um detalhe incessantemente citado foi o fato de a cantora ter falecido no exato dia em que morreu seu marido, Garrincha, o craque bem mais famoso que ela, à época do casamento. Essa coincidência fez brotar as mais diversas opiniões. Houve quem reclamasse do destaque a ela dado; houve quem visse nela um lance romântico; houve quem criticasse a visão desse romantismo; houve quem se espantasse com ela. Enfim, os boatos e o mimimi de sempre, provocados por um acontecimento marcante, que logo depois cai no oblívio da espuma dos dias.
Quem leu o manifesto do surrealismo deve lembrar que, nesse texto que revolucionou a arte no século XX, André Bréton propõe uma outra maneira de encarar a realidade, opondo ao pensamento lógico e ao realismo uma forma de pensamento em que prevalece o sonho, a fantasia e o acaso, criando disposição para o mistério que subsiste nas mais diversas e corriqueiras ocasiões da humana existência.
Não deixa de ser intrigante pensar que no caso das mortes de Elza e Garrincha (e em outros casos também) a casualidade das datas provoca a imaginação, sobretudo diante do trançado de amores e dores da união dessas duas criaturas. É exatamente isso que os surrealistas chamavam de “acaso objetivo”, esse encontro quase inverossímil, sem explicações entre um acontecimento externo (a mesma data da morte de ambos) e outro interno (a falta de uma explicação lógica e racional para isso). A coincidência, então, se torna um enigma, diante da imprevisibilidade do fato.
Bem, não sei se vocês concordam comigo. Mas a motivação de minhas histórias está sempre presente em tudo que é não decisivo, não determinado e que encontro ao acaso na vida. Seres, objetos ou situações. Isso me faz pensar que o acaso objetivo é um dos mais poderosos motores da ficção, como bem sabia Buñuel em seus filmes e como qualquer criatura que escreve literariamente poderá atestar.

Bernadette Lyra

E escritora de ficcao e professora de cinema. Escreve as tercas-feiras sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporaneos

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