Não é por nada não, mas cada dia mais estou me sentindo desqualificada para lidar com os cancelamentos a que a história da cultura da humanidade vem sendo submetida. A começar pela tal linguagem neutra, que não passa de uma tentativa estafante de mudar, à força, as regras da gramática da Língua Portuguesa, essa bela e maltratada “última flor do Lácio”, como cantou o poeta Camões.
Digo estafante porque a mim me parece bastante dificultoso acabar com o uso dos artigos definidos ou indefinidos anteriores aos substantivos. Confesso que tenho uma afeição especial por essas letrinhas assim nomeadas exatamente por definirem o gênero gramatical das palavras.
Mais dificultoso ainda me soa apelar para e/i/u/ em lugar das vogais finais. Acho muito esquisito alguém falando “mi namorade” em lugar dos agradáveis “meu namorado” ou “minha namorada”. Em todo caso, é menos complicado que o uso de @ e X, já considerados ultrapassados e fora de cogitação.
Mas essas são coisinhas risíveis que, como tudo no mundo, talvez só se resolvam com o tempo, que é o Senhor da Razão, segundo estampado na camiseta já completamente esquecida de um certo presidente. O que não é risível é a velocidade com que as gerações se sucedem ávidas por mudanças que na maioria das vezes são aceitas como modismos “da hora” e são repetidas sem o menor critério crítico.
Tão pouco é risível a solidificação de um “arque-texto” a que pessoas aderem sem questionar: um conjunto de substâncias básicas a partir das quais tudo passa a ser reformado. É o caso de certas coisas e palavras que começam a ser usadas como prova de aderência à socialização das igualdades identitárias ou ao repúdio a posições contrárias àquelas das próprias pessoas envolvidas.
Por exemplo, virou moda apontar os pecados de histórias infantis de Monteiro Lobato, antes fazedoras de encantamento de milhares de crianças; proibir a reprodução de fotos de indígenas feitas quando ainda andavam nus, como os botocudos nas selvas do rio Doce; rotular de fascista ou de comunista qualquer indivíduo que esteja contra determinados ideários políticos, apenas por generalização, ainda que o verdadeiro sentido histórico dessas palavras seja ignorado por quem as usa
A identidade vem das narrativas que forjamos para nós desde que nascemos. Assim é justo que com as mudanças venham outras narrativas para substituir as já conhecidas. O que não é justo é que, para afirmação das novidades, sejam canceladas todas as demais narrativas em que as culturas e as sociedades humanas vêm se sedimentando historicamente, ao longo de séculos e séculos e séculos. Amém!