Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Crônica

Estou desqualificada para lidar com os cancelamentos históricos

Por exemplo, virou moda apontar os pecados de histórias infantis de Monteiro Lobato, antes fazedoras de encantamento de milhares de crianças ou proibir a reprodução de fotos de indígenas feitas quando ainda andavam nus, como os botocudos

Publicado em 25 de Abril de 2023 às 00:10

Públicado em 

25 abr 2023 às 00:10
Bernadette Lyra

Colunista

Bernadette Lyra

blyra@uol.com.br

Monteiro Lobato ao lado da família, em foto de data desconhecida
Monteiro Lobato ao lado da família, em foto de data desconhecida Crédito: Arquivo Pessoal
Não é por nada não, mas cada dia mais estou me sentindo desqualificada para lidar com os cancelamentos a que a história da cultura da humanidade vem sendo submetida. A começar pela tal linguagem neutra, que não passa de uma tentativa estafante de mudar, à força, as regras da gramática da Língua Portuguesa, essa bela e maltratada “última flor do Lácio”, como cantou o poeta Camões.
Digo estafante porque a mim me parece bastante dificultoso acabar com o uso dos artigos definidos ou indefinidos anteriores aos substantivos. Confesso que tenho uma afeição especial por essas letrinhas assim nomeadas exatamente por definirem o gênero gramatical das palavras.
Mais dificultoso ainda me soa apelar para e/i/u/ em lugar das vogais finais. Acho muito esquisito alguém falando “mi namorade” em lugar dos agradáveis “meu namorado” ou “minha namorada”. Em todo caso, é menos complicado que o uso de @ e X, já considerados ultrapassados e fora de cogitação.
Mas essas são coisinhas risíveis que, como tudo no mundo, talvez só se resolvam com o tempo, que é o Senhor da Razão, segundo estampado na camiseta já completamente esquecida de um certo presidente. O que não é risível é a velocidade com que as gerações se sucedem ávidas por mudanças que na maioria das vezes são aceitas como modismos “da hora” e são repetidas sem o menor critério crítico.
Tão pouco é risível a solidificação de um “arque-texto” a que pessoas aderem sem questionar: um conjunto de substâncias básicas a partir das quais tudo passa a ser reformado. É o caso de certas coisas e palavras que começam a ser usadas como prova de aderência à socialização das igualdades identitárias ou ao repúdio a posições contrárias àquelas das próprias pessoas envolvidas.
Por exemplo, virou moda apontar os pecados de histórias infantis de Monteiro Lobato, antes fazedoras de encantamento de milhares de crianças; proibir a reprodução de fotos de indígenas feitas quando ainda andavam nus, como os botocudos nas selvas do rio Doce; rotular de fascista ou de comunista qualquer indivíduo que esteja contra determinados ideários políticos, apenas por generalização, ainda que o verdadeiro sentido histórico dessas palavras seja ignorado por quem as usa
A identidade vem das narrativas que forjamos para nós desde que nascemos. Assim é justo que com as mudanças venham outras narrativas para substituir as já conhecidas. O que não é justo é que, para afirmação das novidades, sejam canceladas todas as demais narrativas em que as culturas e as sociedades humanas vêm se sedimentando historicamente, ao longo de séculos e séculos e séculos. Amém!

Bernadette Lyra

E escritora de ficcao e professora de cinema. Escreve as tercas-feiras sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporaneos

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Balanços - Hospital São José - 23/04/2026
Editais e Avisos - 23/04/2026
Cartórios - 23/04/2026

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados