Vez em quando mulheres que escrevem escutam a pergunta: “existe literatura feminina?”. É preciso paciência para responder. É equívoco pensar que, por ser mulher, uma escritora se limita a escrever sobre o que muitos ainda consideram o “universo feminino”. Essa coisa aplicada à dupla sexo/gênero já caiu em desuso, depois da Judith Butler e do furacão queer. Mas ainda é muito comum atribuir às mulheres uma escritura meiga, rendilhada ou sem outras preocupações que expressar sentimentos de dores e amores pessoais.
Até o século XIX, em geral, poemas, romances e contos daquelas que ousavam escrever estavam carregados de dor, de sentimento, de uma lírica da sedução. Quando não, tinham um tom gelado e pareciam estar sempre justificando ou se defendendo da opinião crítica dos homens (vide Virginia Woolf, no começo do século XX). E não vai longe. Em 1977, Clarice Lispector, em entrevista na TV Cultura, diz: “Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada...”. Clarice nem viveu para ver o quanto “A hora da estrela”, publicado no ano de sua morte, mudou a cabeça de tantas escritoras.
É preciso reconhecer que as lutas das feministas nos anos 60/70 muito contribuíram para que, hoje, a expressão da mulher na literatura possa nomear e subverter os sistemas de identidade que regem a cultura e as sociedades. Isso não quer dizer que não se façam poemas e textos ainda com as velhas qualificações maneiristas, pois o despertar da consciência não é como cruzar uma fronteira: você dá um passo e está em outro país. O que importa, porém, é ter a certeza de que, quando faz literatura, uma mulher tem preferências e modos de criar específicos.
O que ela faz é escrever sobre suas experiências de vida, sua memória existencial e seu posicionamento pessoal diante de fatos sociais e históricos. Ao fazer isso, está indagando e aprendendo sobre si própria, sua existência e, por tabela, sobre a existência de outras mulheres em um mundo que, apesar dos avanços na luta contra as convenções estruturais, lamentavelmente, ainda não é totalmente liberto do ranço da cultura patriarcal.
Assim, é possível enxergar um elo indissociável entre a literatura, a experiência e as subjetividades, para muito além da moda e das identidades de gênero, binárias ou não. Também é possível falar da expressão de um universo literário múltiplo e diversificado em que se observa a tomada progressiva de consciência das mulheres, após séculos de vida mantidos sob opressão. Enfim, apesar dos pesares, uma mulher que escreve pode escrever sobre o que ela bem desejar e do modo como ela bem quiser.