Alguém me pergunta qual o sentido produtivo de escrever ficção. Antes, quero esclarecer que escrever ficção requer disciplina, coragem, técnica e muita determinação. Tudo bem salpicado com pitadas de imaginação, maluquices e sonhos. A inspiração representa apenas dez por cento. O resto do trabalho é transpiração.
Eu chamo escrever ficção de “meu ofício”. Algumas pessoas alegam que ofício é quando a atividade exercida pode ser declarada em formulários e questionários e papéis que têm aquele espaço onde se deve registrar a profissão. A mim não importa que eu nunca possa deixar ali a palavrinha esquisita: “escritora”. Acontece que se grafar “escritora”, o pessoal a serviço da burocracia, nas repartições oficiais, estranharia tal fato. Afinal, uma “escritora" , especialmente em nosso país, parece ser uma criatura tão desinteressante aos olhos da economia e tão fora das circunstâncias do capitalismo quanto alguém que declarasse em um papel oficial ser “pastora de nuvens”.
Mas, mesmo assim, continuo a chamar o que faço de ofício. É certo que não me dá o retorno para pagar a contas, nem mesmo um modesto retorno para comprar verduras na feira. Mas é meu ofício.
De fato, conheço muito pouca gente no Brasil que vive daquilo que escreve. A maioria que conheço acontece na literatura como um ser dividido pelo fantasma da constante necessidade de exercer um “trabalho produtivo” e a tarefa de escrever. Quase ninguém faz literatura de ficção ou mesmo faz poemas em tempo integral.
Alguém talvez contraponha que melhor seria justificar isso dizendo que escrever ficção literária se trata de arte. Como se fazer arte não fosse um trabalho como outro qualquer, capaz de contribuir para o bem social. Na verdade, artistas têm limitações iguais àquelas de qualquer pessoa. A diferença é que, em seu ofício, sabem lidar com essas limitações. Conseguem assimilar e transformar tudo em torno de si: as criaturas, os acontecimentos, os objetos, as paisagens e até mesmo o trabalho artístico já produzido por outrem. Assim conseguem suprir as deficiências comuns aos seres humanos e podem brincar de criar.
Por essa razão, quem escreve ficção não se furta a confessar que lê os livros alheios não só pelo prazer da leitura, mas também como uma tarefa de artífice, estudando as tramas e estruturas de uma obra que admira, para assimilá-la em si e reproduzi-la ao infinito da fragmentação criativa. Esse amálgama é o mistério da literatura. E talvez esse seja o sentido de escrever ficção: é um jogo divertido e precioso, afinal.