As louvações da semana se dirigem à poeta mineira Adélia Prado, por ter sido agraciada com dois importantes prêmios literários. Ao contrário do que muita gente pensa e algumas mídias deixam entender, não se tratou de disputa entre concorrentes, mas escolha das comissões formadas para atribuição das láureas.
Mas o fato de ser uma mulher a receber o “Camões” e o “Machado de Assis” (prêmios com nomes masculinos) é por demais relevante. No mundo da literatura, as mulheres sempre foram tidas como “segundas”. Tudo corre como se houvesse uma determinação biológica de que, sendo mulher, a pessoa tem obrigação de oferecer uma escritura dentro daquilo que a velha e ainda operante cultura patriarcal considera “normal” para o “feminino”.
É muito comum pensar que as mulheres são donas de uma escritura meiga, doce, rendilhada, sem outras preocupações que expressar sentimentos de dores e amores caseiros e pessoais ou de submissão aos machos da espécie. A própria Adélia, agora lambida pelas palavras lisonjeiras de tanta gente, se viu um dia exposta a esse preconceito. No começo de sua carreira, enviou alguns poemas ao Pasquim, para apreciação, e foi contemplada com a resposta do iconoclasta periódico, que publicou uma nota dizendo que ela escrevia “parecendo lavadeira nanica que perdeu o sabão na beira do rio”.
Não fosse a persistência da poeta, que foi à luta em defesa de seu modo de compor versos, talvez hoje não estaríamos festejando sua premiação.
Ela ficou furiosa, escreveu e publicou, com ajuda de um amigo de um jornal de Belo Horizonte: “O pasquixo (uma estória que é um lixo)". Depois, reenviou os poemas para o crítico literário Affonso Romano de Sant’Anna, que os repassou a Carlos Drummond de Andrade, o nome literário mais influente da época.
Por sua vez, Drummond, impressionado com os poemas da conterrânea, os fez publicar pela editora Imago. Daí à frente, o nome de Adélia Prado passou a ter importância na literatura brasileira. Seus livros, entrevistas e afirmações são sempre sucesso.
Aos oitenta e oito anos, ela continua a escrever e a brilhar. Embora parte das opiniões críticas considerem que as afirmações encontradas em seus versos estão ligadas aos papéis convencionais do “feminino” e submetidas à uma lógica religiosa católica conservadora, sendo assim “antifeministas” e distanciadas da luta condizente com as situações que as mulheres vivenciam neste século XXI, quando a multiplicidade e as atuais identidades de comportamento contestam e modificam a ideia de que os atributos da mulher devem ser submetidos a uma cultura de naturalização patriarcal.