O Parque Moscoso faz 112 anos, em maio. Gosto de imaginar que, em seus belos dias, por ali passeavam, mancebos de gravata, senhoritas de roupas esvoaçante, senhoras cheirando a alfazema, namorados, crianças e um mundo de gente que vinha gozar o passeio entre as alamedas e aproveitar a fresca da tarde sob a franja das árvores.
Nas bordas do parque, busco uma casa pintada de azul que povoou minha imaginação desde a primeira vez que, ainda menina, vim a Vitória. E, finalmente, a encontro. Está quase irreconhecível. A pintura externa está desbotada. Para erguer um muro entre ela e a rua, arrancaram-lhe as grades prateadas, que outrora protegiam o jardim.
Mas os restos de um antigo esplendor permanecem, quase envergonhados, no portão em estilo art-nouveau, na renda do beiral, na escadaria elegante, na varanda sustentada por colunetas esbeltas de ferro, nos delicados ornamentos de flores metálicas. Como uma deusa em decadência, ela conserva vestígios do encanto. O que restou ficou gravado em uma faixa no frontal: Villa Oscarina.
Sempre imaginei quem poderia ter sido a dama que lhe emprestou o nome. Talvez uma senhora de cabelos presos em um coque, e orelhas com pingentes de pérola. Talvez uma moça que se debruçava à janela para ver o estudante que a cortejava. Talvez uma dona de casa comum.
Muitas vezes fantasiei histórias de amor e de ódio, de alegrias e tristeza que podem ter rondado a existência de seus habitantes. Descobri, agora, que é um nome que guarda a memória da dor, a cicatriz na alma de uma família que perdeu uma jovem de 18 anos, depois de longa e sofrida doença: Oscarina, a filha de Antenor Guimarães e Anna Cuz Guimarães, os primeiros donos do lindo sobrado.
Essa descoberta só fez aumentar o fascínio que a Villa Oscarina sempre exerceu sobre mim. É certo que a meus olhos infantis, ela era bela, com seus encaixes de luz e de prata. É certo que rebrilhava e era fascinante como uma caixa azul de brinquedo. Mas isso não explicava tanto encantamento. Ali, debaixo da crua luz do meio-dia que se esparramava sobre o ambiente de decadência que rodeia a beleza do Parque Moscoso, pensei que Shakespeare tinha razão: há mais coisa entre o céu e a terra de que pode imaginar nossa vã filosofia.
De repente, um pedinte se aproxima de mim. Me aborda com certa insistência. É quase brutal. Os moradores dizem que há muitos deles e que agem assim. Arrancada de meus memoriais devaneios, caio na real. E me vou, convencida de que é este mesmo o destino de tudo e de todos, de que tudo se transforma e se acaba. Porque a vida é uma engrenagem que tritura as lembranças, as coisas e as pessoas até reduzi-las a pó, a osso e a esquecimento.