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Herança cultural urbana

O Viaduto Caramuru em Vitória e o espírito do lugar

Ao ser reduzido à condição de estacionamento particular, o viaduto perdeu a credibilidade de patrimônio histórico. E de quem é a culpa?

Publicado em 22 de Junho de 2021 às 02:00

Públicado em 

22 jun 2021 às 02:00
Bernadette Lyra

Colunista

Bernadette Lyra

blyra@uol.com.br

Estruturas descascando e partes se soltando de prédios em Vitória
Viaduto Caramuru em foto de outubro de 2019 Crédito: Laís Magesky
Quem nunca ouviu falar nas pinturas deixadas pelos homens pré-históricos em cavernas? Gravar imagens de bichos, utensílios, danças e corpos foi a tentativa de registrar uma prova de existência, uma preservação de vestígios, uma espécie de proteção do que era importante, um recado deixado para as gerações que viriam depois.
Dá para pensar que nossos antepassados longínquos respeitavam o preceito de que a juntura de alma e paisagem é uma das coisas que une a cadeia dos seres humanos. Hoje, em pleno século XXI, qual seria a importância dessas mesmas preocupações? Será que os seres humanos ainda pensam em preservar e proteger o que resta do passado, considerado “lixo descartável” por tantos?
Existem algumas provas de boa vontade para com a herança cultural urbana, como a Declaração de Québec (2008) que versa sobre a preservação do “spiritu loci” – espírito do lugar –, convocando cada pessoa e cada comunidade à vigilância, defesa e proteção da vitalidade, continuidade, espiritualidade e memória de uma cidade. Vou dar um exemplo: lamentar a transformação do Viaduto Caramuru, no Centro de Vitória, em um estacionamento.
É preciso lembrar que isso vai na contramão do Código de Trânsito Brasileiro, que ostenta um artigo (181) com a proibição de estacionar sobre viadutos e pontes. Também é preciso lembrar que o Caramuru tem em torno de si e de seu nome um rosário de narrativas, lendas, curiosidades, religiosidades e aspectos memoriais que, há anos, integram o mais essencial do espírito do lugar capixaba.
Ao ser reduzido à condição de estacionamento particular, o viaduto perdeu a credibilidade de patrimônio histórico. E de quem é a culpa? Não sei afirmar. Só sei que os veículos que o ocupam são os mesmos sempre. Chegam pela manhã e só saem à tardinha. São recepcionados com zelo por um senhor prestimoso em seu papel de guardador do rebanho. Quando já recebeu de cada pessoa o pagamento do serviço diário e tem todas as vagas preenchidas, o bom senhor some como um sopro no ar. Fica apenas o pobre viaduto vilipendiado e lotado o dia todo por uma fieira de metal e rodas, enquanto os donos dos carros estão por aí.
Acredito que quanto mais se preservam as provas da existência do passado de uma civilização, mais se fortalecem as ações ligadas à vida intelectual, artística, moral e material de uma época, de uma região, de um país ou de uma cidade. Seria gratificante ver o viaduto restituído à sua dignidade ancestral. Mas esta talvez seja uma cruzada de “spiritu loci” perdida. Há mistérios inexplicáveis nesta nossa ilha ilhada.

Bernadette Lyra

E escritora de ficcao e professora de cinema. Escreve as tercas-feiras sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporaneos

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