Uma das coisas mais estranhas deste estranho ano em que estamos aconteceu na cidade de Chihuahua, no México. Certa manhã do mês de fevereiro, as pessoas acordaram e se depararam com milhares de pássaros mortos, espalhados nas ruas. Caíram do nada? Foram atacados por um predador poderoso e para fugir se chocaram com o chão? Atravessaram uma nuvem de gases mortíferos? Até hoje não se sabe o que aconteceu.
Vocês devem estar pensando que isso ocorreu bem distante de nós e que não há com o que se preocupar aqui em nossa deliciosa ilha. Pois é justamente sobre esse perigo que quero falar. Quem mora no Centro e tem sensibilidade para observar a Mãe Natureza pode atestar que, não faz muitos anos, este lado da cidade era abraçado pelo verde que cobria toda a extensão do maciço central.
As árvores nativas da Mata Atlântica desenhavam uma renda de galhos contra o céu e eram muitos os pássaros que ali habitavam. Particularmente, sempre considerei um luxuoso deleite poder apreciar a mudança de cores das folhagens nas copas, a cada nova estação. Sem falar no prazer de ouvir o chirriar das corujas, à noite, e o coral de bem-te-vis, à tardinha. Até mesmo o canto de um que outro sabiá ou algum passarinho mais raro que cruzava o ar em direção a minhas janelas.
Mas, agora, as árvores estão diminuindo e os pássaros, desaparecendo. É de lamentar, sobretudo, o sumiço dos bem-te-vis vespertinos. Cada dia fica mais difícil que se escute um só deles que seja.
Não sei vocês, mas eu penso que isso se deve ao destroçamento da crosta de mata ancestral e nativa, aos poucos sendo dizimada pelo avanço das construções. De modo matreiro e furtivo, as casas vão subindo em direção ao topo dos morros. A fumaça que aparece entre as árvores quase sempre é o resultado da queima de um terreno. Depois, da fumaça vão aparecendo telhados, fachadas, postes e luzes que piscam ou que abrem os olhos no escuro da vegetação.
Sei que muita gente vai dizer que a ocupação é inevitável, que é assim mesmo o progresso, que as pessoas necessitam morar, e toda essa conversa que vem da má consciência de quem não vê ou não quer ver o oportunismo, o descuido, a ausência de fiscalização, a falta de cuidado com nossas reservas naturais de floresta.
O grande desafio - não só nosso, capixabas que somos, mas de todo o planeta – talvez seja sensibilizar as comunidades e as criaturas que gerenciam os poderes. Tanto seria oportuno investir na vigilância contra o desmatamento, quanto educar para uma mudança de comportamento e cuidar de projetos de preservação.