A mitologia das redes sociais pendura frases feitas no cabide de cientistas, escritores, filósofos, reis, rainhas e tantos outros ilustres bichos de orelha. Ainda que não se possa afirmar a veracidade de todas, algumas são deliciosas. Por exemplo: “a criatividade é a inteligência se divertindo”, atribuída (mas não confirmada) a Einstein. Essa frase me vem à cabeça quando leio sobre a existência de robôs da inteligência artificial, os famosos bots, que são capazes de escrever poemas, contos e romances.
Não é novidade falar em inteligência artificial. Ela está entre nós. E, cada vez mais, é motivo de filmes e livros com histórias de ficção científica. Quem não se lembra de "A.I." ("Artificial Intelligence", 2001), sucesso de Spielberg? Pois é. Esse agrupamento de redes neurais, algoritmos, sistemas de aprendizado e outras parafernálias tecnológicas consegue simular as capacidades humanas de raciocínio, de habilidade de tomar decisões e de percepção do ambiente.
E, agora, vem a cereja do bolo: os robôs conseguiram a proeza de reivindicar para si a criatividade, adentrando o terreno da literatura. Já são muitos os bots a produzirem textos que em nada ficam a dever à obra dos mais ilustres cérebros. Por exemplo: o romance “True Love.wrt”, de autoria do PC Writer 1.0, que refaz “Anna Karenina”, de Tolstoi, no melhor estilo do badalado japonês Haruki Murakami; os minicontos do Magic Realism Bot (Robô de Realismo Mágico) com lances tão incríveis que Gabriel García Márquez não teria vergonha em assinar.
O ato de criar sempre foi considerado a marca registrada da inteligência das criaturas na Terra. Ao longo dos séculos, a inteligência foi criando universos científicos, artísticos e culturais. Dentro desses universos, a literatura boia como a ilha privilegiada da criatividade, onde moram a emoção, a partilha de sentimentos, a empatia. Coisas que nos ajudam a sobreviver neste planeta cada vez mais estranho. Como diz o escritor Luiz Ruffato: “A literatura não tem a pretensão de curar as dores do mundo; mas certamente ilumina caminhos”.
A questão é descobrir se inteligência artificial tem poder suficiente para substituir a inteligência humana no quesito da força criativa da literatura. Os bots que escrevem tornarão descartável a profissão de romancista, contista e poeta, como outras que a era digital ameaça extinguir? Vai chegar o dia em que a inteligência artificial também vai se divertir com a criatividade roubada aos seres vivos? Talvez sim. Talvez não. Por enquanto ainda é cedo para a gente saber.