A efervescência do 32º Festival de Cinema de Vitória acendeu lembranças que dormiam nos cantinhos de minha memória. É bom que vocês saibam: meu caso de amor com o cinema vem de muito longe, de quando ainda balbuciava e era carregada para a sala de projeção de meu avô, o dono do então único cineteatro de Conceição da Barra, um espaço rudimentar de palco, chão e paredes, erguido à beira do Cricaré. Foi lá que, sentada no colo de minha mãe ou de minhas tias, comecei a ver as imagens em branco-e- preto, se movendo no feixe de luz.
Depois, nos longínquos anos 50, eu era aluna interna do Colégio do Carmo e esperava com ansiedade as saídas aos domingos. Não queria perder as matinês do Cine Glória, mesmo local em que aconteceram as mostras de filmes do Festival de 2025. No Glória, tive o deslumbramento de ver "Shane, os brutos também amam", com Alan Ladd, o caubói solitário. Ainda tive o luxo de assistir a Elizabeth Taylor e Van Johnson em "A última vez que vi Paris", no Carlos Gomes. E de me deliciar na sessão inaugural do São Luis com a chanchada "Carnaval no Fogo", "Aviso aos Navegantes" ou "Carnaval Atlântida" (não me recordo bem, todas tinham o mesmo jeito escrachado de music-hall).
Em meu currículo memorial de cinéfila constam frequências ao Trianon, em Jucutuquara, e ao Cine Capixaba, em São Torquato. Além disso, escutei Ann Blyth, em "Rose Marie", no Santa Cecília. Porém, nada se compara àquela borbulhante confusão do Festival de Cinema Amador Capixaba, no Jandaia, em dezembro de 67, onde estavam os chamados “jovens rebeldes” da ilha. E mais: lembro o "De Lurdes" e o "Juparanã", sem falar na sensação de sentar-se nas cadeiras duras do Vitorinha, onde vi meu primeiro Godard: "A chinesa".
Bate nostalgia ao pensar que nenhum desses antigos cinemas de rua conseguiu sobreviver na roda viva do tempo. Muitos, como o Paz e o Juparanã, viraram bancos, salas de cultos religiosos etc. Foram ocupados por preocupações financeiras de clientes, cânticos e orações de fiéis. Outros persistem rondando a memória de seus antigos frequentadores como fantasmas desconstruídos e tontos.
Todos, porém, se findaram. Não mais são castelos onde telas mágicas espelham histórias carregadas de tristezas e alegrias, desditas e felicidades, amores e dores. Nem mais são refúgio e abrigo aos sonhos, mazelas e solidões das criaturas humanas.
Quanto a mim, que tanto aprendi nessas perdidas salas de filmes, só me resta escrever sobre elas, pois estou convencida de que amo o Cinema, mas a Literatura é minha nave extraviada, meu modo de vagar pela inquietude, minha forma de existência no mundo.