Os humanos sempre se juntaram em comunidades. Em tempos muito remotos, as primeiras comunidades eram íntimas, reduzidas a famílias. Com o tempo, foram se estendendo, ocupando status diversificados. Hoje, uma comunidade é um grupo de pessoas que compartilham algo em comum: pode ser uma história, uma determinada área geográfica, uma prática ou um objetivo. Nesse sentido, as Academias de Letras são comunidades. O objetivo comum a todas é o cultivo e a defesa de uma língua e da literatura que nessa língua se expressa.
A existência de qualquer comunidade depende do trio de conhecimento, ações e saberes, repartidos entre todos os membros dela participantes. No entanto os membros de uma comunidade tendem a ser individualistas. É próprio dos seres humanos. Recusamos achar que somos ignorantes em muitas coisas porque tratamos o conhecimento dos outros como se fosse o nosso, além do que defendemos os nossos próprios saberes como sendo mais importantes que os saberes alheiros. Quanto às ações, prezamos mais sonhar com um resultado de utilidade exclusiva que de utilidade coletiva.
Porém, no âmbito de uma Academia de Letras, o conhecimento, as ações e os saberes não podem ser considerados de modo estritamente individual. Antes, devem ser tidos como o resultado da soma total das obras literárias e linguísticas de cada um de seus membros, sejam elas produções contemporâneas e atuais ou memoriais e preservadas dos pais fundadores e antepassados acadêmicos.
Nesse quesito, a atitude de mútua confiança e respeito iguala os participantes, sem distinção de sexo, gênero, idade ou procedência. O que não invalida o espírito de subjetividade na intersubjetividade, em que cada qual reconhece seu próprio lugar de valor e o lugar de valor do outro. É a aceitação de uma condição do merecimento pessoal incluído no merecimento coletivo. É preciso lembrar que uma Academia de Letras não é um Grêmio-Lítero esportivo escolar: é necessário um notório saber, uma aprovação de outros acadêmicos e um reconhecimento de autoria de obras meritórias para nela estar.
O desejo mais legítimo de quem participa de uma Academia de Letras deveria ser o pertencimento a uma comunidade constituída por elos desiguais, porque únicos em si, mas unidos na igualdade de um só objetivo. E, sobretudo, uma comunidade sempre pronta a aprender e a se reinventar.
Aprender e se reinventar é uma habilidade mais que necessária para garantir a sobrevivência das comunidades como as academias de letras no século XXI e (quem sabe?) por muitos e muitos séculos ainda adiante.