Nesta segunda-feira (21), aconteceu uma grande festa virtual em celebração aos 75 anos das Organizações da Nações Unidas, transmitida para o mundo inteiro diretamente da sede da organização nos EUA; testemunhamos um momento importante para a humanidade, no qual foi possível ver avanços enormes e, ainda, observar quão necessária é a atuação das nações irmãs para a resolução de muitos problemas que persistem no planeta apesar de todo o esforço que foram feitos nesses 75 anos.
A ONU, como é conhecida a organização, foi fundada logo em seguida ao fim da II Guerra Mundial, com os objetivos principais de unir as nações para a paz e a melhora na qualidade de vida dos seres humanos por meio da efetivação da garantia máxima de respeito à dignidade de cada ser em si mesmo, de cada vida humana como valor único e incontestável.
É por esse motivo que logo no preâmbulo da Carta da ONU, assinada em 1945 na cidade de San Francisco, nos Estados Unidos, os líderes das nações pactuaram em nome “(d)OS POVOS DAS NAÇÕES UNIDAS”, “preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra, que por duas vezes, no espaço da nossa vida, trouxe sofrimentos indizíveis à humanidade, e a reafirmar a fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e no valor do ser humano, na igualdade de direito dos homens e das mulheres”.
Não faltam motivos, portanto, para celebramos os 75 anos da Organização das Nações Unidas, certos de que muitos desafios ainda se apresentam à humanidade, mas convictos de nunca em sua história partes divergentes, países em guerra, nações muçulmanas, cristãs, hindus, budistas e das mais diversas crenças sentaram juntas na mesma mesa e debateram a paz mundial.
Para os que insistem em apenas criticar o trabalho das Nações Unidas, vale a pena lembrar que antes de sua fundação, os países não dialogavam entre si, partes inimigas de um conflito raramente sentavam para negociar na mesma sala; países de tradições religiosas diferentes eram tidos como inimigos; seres humanos com opiniões políticas divergentes não se encontravam para deliberar um objetivo comum em uma convenção mundial. Tudo isso só vem sendo possível graças aos esforços da ONU em manter uma plataforma de debate público entre os 193 países que hoje compõem esse grêmio universal.
Sim, sabemos que há muito a ser feito, a questão racial ainda é muito mal resolvida no planeta, a população negra vem sendo invariavelmente deixada para trás nos avanços sociais e financeiros do globo, a devastação da natureza por meio do aquecimento global está longe de ter um fim próximo com a cooperação entre os países membros, grande parte dos jovens no mundo está desempregada e sem saber o que fazer do seu futuro; mas todas essas pautas estão formuladas e vêm sendo debatidas na Agenda 2030 pactuada pelos países membros na época da comemoração dos 70 anos da ONU, em 2015.
Importante que saibamos, todos nós, seres viventes neste planeta, que o diálogo global em uma esfera pública como é a Assembleia Geral das Nações Unidas, que se iniciou ontem, dia 22 de setembro, não é algo dado e construído sem esforço. Esse talvez seja o ponto temporal de avanço civilizatório mais longevo alcançado pela humanidade. Críticas banais e esforços boçais para desmoralizar a ONU, tudo isso só pode partir de pessoas que ainda não compreenderam a importância do diálogo, da tolerância, enfim, da dignidade humana em si. São esses os valores que perpassam o entendimento e a compreensão de uma cultura de paz que está sendo construída no mundo há 75 anos, para a qual todos os seres são parte essencial.
Discurso de Jair Bolsonaro na abertura 75ª Assembleia Geral da ONU:
Dentre os líderes mundiais que participam da 75ª Assembleia Geral da ONU, nesta semana, estão dois negacionista da própria validade e importância da Organização, os presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump.
No início da pandemia de Covid-19, o presidente brasileiro entrou em um conflito ferrenho com o Diretor da Organização Mundial da Saúde sobre a sua política e postura como cidadão frente à pandemia de Covid-19. Já o presidente estado-unidense vem ameaçando retirar verbas e fundos da ONU e, com relação à OMS, além de adotar o mesmo discurso de Jair Bolsonaro, Trump efetivou a retirada dos EUA da OMS, desfalcando a instituição financeiramente e impossibilitando, assim, a realização de várias ações humanitárias na área da saúde, levadas a efeito pela agência da ONU.
Causa surpresa, porém, a forma como Jair Bolsonaro posiciona-se perante o grêmio mundial em seu discurso de abertura da Assembleia Geral, ontem, pois, ao invés de repetir o discurso negacionista que adota internamente, o representante brasileiro se utiliza de uma retórica propagandista, pretendendo ser um governo que luta contra a pobreza (fazendo alusão ao auxílio emergencial financeiro pago pelo governo federal durante a pandemia), que protege a Amazônia e outros biomas brasileiros, e que respeita a dignidade humana.
Parece que vivemos – nós e o senhor Jair Bolsonaro – em países e mundos distintos. Onde vive o senhor presidente não existe “Não faltaram, nos hospitais, os meios para atender aos pacientes de Covid-19” (transcrição do texto original do discurso). Isso é muito estranho, pois todos sabemos que sim, vivenciamos aqui no Brasil uma situação de calamidade na saúde pública com mais de 137 mil brasileiros mortos, muitos deles por falta de leitos e equipamentos nos hospitais.
Já com relação às queimadas na Floresta Amazônica, o senhor presidente informa à Assembleia Geral que “Os focos criminosos são combatidos com rigor e determinação. Mantenho minha política de tolerância zero com o crime ambiental.” Ora, sabemos que isso não é o que ele mesmo, juntamente com o ministro do Meio Ambiente, dizem internamente. Ou lá na Assembleia Geral ou cá em nosso país, temos um discurso mentiroso.
Assusta, por fim, e vai de encontro ao espírito das Nações Unidas, a frase de encerramento do discurso, por meio da qual o presidente diz: “O Brasil é um país cristão e conservador e tem na família sua base”. Sabemos que o Brasil é um país multicultural e é isso o que nos faz um povo especial, acolhedor, diverso e tolerante. Ademais, sabemos que o conceito de família de Jair Bolsonaro e de seu ministério chefiado pela senhora Damares Alves não é o mesmo conceito de família adotado pela ONU. Pelo contrário, por reiteradas vezes o chefe de governo e de Estado brasileiro e a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos manifestaram-se pejorativamente sobre o conceito ampliado de família defendido pela ONU e suas agências.
Enfim, queridos leitores e leitoras, quanto ao governo brasileiro, realmente não há esperanças. Mas para a ONU, sim. Feliz aniversário! Esperamos que venham mais outros 75 anos de paz, ajuda humanitária, igualdade de gênero, redução da pobreza, redução da fome e o fim do aquecimento global.