Quando saíram os resultados da eleição para a Presidência da República no dia 28 de outubro, o que muitos de nós sentimos foi medo. Medo de que um caos de violência, tirania, desmandos e prisões infundadas se instalasse no país. Lembro-me que amigos e colegas mandavam mensagem, alguns chorando, outros desesperados, temendo pelo fim de todos os avanços democráticos e civilizatórios que vinham sendo conquistados pela sociedade brasileira desde o fim da ditadura militar.
Tinha-me esquecido desse fato, quando nesta semana recebi pelos correios o livro "A Monarquia do Medo" ("The Monarchy of Fear", Oxford University Press, 2018) da filósofa estadunidense Martha C. Nussbaum, professora de Direito e Ética da Universidade de Chicago, premiada em diversos países pelas suas obras e contribuições para o debate democrático mundo a fora.
Para minha surpresa, Nussbaum começa seu livro contando justamente que no dia em que foram divulgados os resultados da eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, amigos e colegas ligaram para ela (que estava no Japão recebendo um prêmio pelo seu trabalho) desesperados e com medo de um futuro devastador que se antevia para a democracia norte-americana.
No livro, porém, Martha Nussbaum nos faz a todos um chamado positivo para a luta pelas instituições democráticas. Ela critica a apatia bloqueadora causada pelo medo e impulsiona seus colegas a agirem em prol da democracia. Assim, segundo a autora, toda tentativa de retrocesso seria acompanhada de protestos, movimentos sociais, debates públicos, discussões acadêmicas e outras formas de articulação política.
Olhando em retrospectiva o que se seguiu nos Estados Unidos após a eleição de Trump, vemos que Nussbaum de fato tem razão. A política trumpista levou milhares de americanos a saírem de suas casas para protestar. Foi graças a Trump que surgiram os movimentos #BlackLivesMatter e #MeToo, os dois mais importantes eventos sociais dos últimos tempos na luta por direitos humanos da população negra e das mulheres. A onda de protestos desencadeadas desde o primeiro dia do mandato de Trump até o seu fim, ademais, produziu efeitos em vários lugares do mundo.
Vemos, desse modo, que afetos políticos podem nos mover para algo positivo e democrático ou pode nos afligir e bloquear nossas esperanças de um país melhor. Tanto lá nos Estados Unidos como aqui no Brasil, o debate polarizado revela justamente como as emoções têm dominado a política. É preciso ter em mente, porém, que essas emoções podem e devem ser convertidas em atos de protesto, de debate, de argumentação visando impedir que retrocessos sejam alcançados por aqueles que lutam contra as instituições democráticas.
Assim, ao vermos nesses últimos dias depoimentos incriminadores na CPI da Covid, façamos com que eles sejam divulgados e levados ao conhecimento do maior número de pessoas possível. Não só espalhando notícias por correntes de WhatsApp, mas esclarecendo com a prestação de informações didáticas e elucidativas para que todas as pessoas possam ter acesso ao conhecimento científico que por vezes, realmente, fica só em salas de aula ou laboratórios de pesquisa.
Como função de cientistas e intelectuais contemporâneos vejo a luta pela democracia por meio do debate inclusivo, por meio da divulgação de informações de forma acessível e com a comprovação de sua origem baseada em dados científicos confiáveis. As emoções são inerentes aos seres humanos e não há nada demais em expressá-las publicamente, pelo contrário, os afetos nos aproximam como pessoas, fazendo-nos sentir da mesma forma que os nossos cocidadãos.
Se eu me afeto pela dor das outras pessoas, eu sinto e compreendo melhor a forma como ela interpreta as informações que recebe. Agindo assim, o diálogo flui melhor e se torna positivo.