A única brasileira a falar na cerimônia de abertura da 26ª Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas da ONU (COP26), em Glasgow, na Escócia, nesta segunda-feira (1º), foi a indígena Txai Suruí. A brasileira é da etnia Paiter Suruí, reside no Estado de Rondônia, estuda Direito, trabalha no departamento jurídico da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, é representante da Guardians of the Forest e conselheira da Aliança Global “Amplificando Vozes para Ação Climática Justa”.
Em uma entrevista para o site Uol, logo depois de sua fala, Txai Suruí diz, sabiamente: “Estou aqui para trazer a mensagem de que não existe justiça climática sem justiça social para os povos indígenas. E que continuemos resistindo independentemente dos resultados que saírem daqui”.
São muitos os desafios dos líderes mundiais nesta COP26: vivemos o maior aquecimento global desde a década de 1990, o tempo é curto para reduzirmos a temperatura em ao menos 1,5° C, há indícios de que, em breve, a Floresta Amazônica começará a emitir gás carbônico ao invés de filtrá-lo. Sendo uma das três florestas que sustentam o clima do planeta, juntamente com a Floresta Tropical da Bacia do Rio Congo e da Floresta Tropical da Indonésia, ela vem sendo alvo de queimadas e desmatamentos cada vez mais agressivos, que lhe retiram a propriedade maior de pulmão do planeta.
A verdade é que a maioria de nós brasileiros e brasileiras se emocionou ao ver a indígena brasileira subir naquele palco e, em poucos minutos, passar ao mundo uma outra imagem do que pode ser o Brasil, um país que se preocupa com as populações tradicionais e com o meio ambiente. O problema é que viemos de diversas vergonhas internacionais, em especial na área do meio ambiente, na qual estamos, como país, cada vez mais desacreditados.
Se uma vez o Brasil esteve na liderança das campanhas mundiais para a proteção do meio ambiente, hoje em dia estamos bem longe disso, acompanhando uma discussão jurídica sobre se o presidente Jair Bolsonaro deve ou não ser denunciado ao Tribunal Penal Internacional em Haia pelo crime de genocídio das populações indígenas brasileiras durante a pandemia.
A intenção que vai se tornando cada dia mais clara, de o governo federal fechar os olhos para práticas ilegais contra populações indígenas, seja por meio da tomada de suas terras, seja com a devastação da Floresta Amazônica, seja pela mera negativa de auxílio e cuidados no combate à Covid-19, demonstra o descaso (que também poderia ser chamado de genocídio) em relação às populações indígenas brasileiras e ao meio ambiente onde elas (principalmente) habitam.
Ver Txai Suruí falando ao mundo das dores de seu povo, da morte de seu amigo quando defendia a floresta, nos entristece muito porque queríamos que ela estivesse ali juntamente com uma delegação de autoridades brasileiras que respaldasse o que ela estava dizendo. Mas não, lá estava ela, diante do mundo, falando em nome de milhões de brasileiros que não acreditam mais nas palavras de seu presidente e se sentem constrangidos perante o mundo. Foi preciso que uma mulher jovem indígena tomasse o microfone e falasse ao mundo o que está preso na garganta de muitos brasileiros: nós somos muito mais do que meros bolsonaristas, somos indígenas, somos negros quilombolas, somos mulheres, somos defensores de direitos humanos e, acima de tudo, queremos, sim, salvar o planeta.
As palavras de Txai Suruí irão certamente ecoar entre os jovens de sua geração, fazendo-nos lembrar que para a justiça ambiental é preciso que haja justiça social, que o empobrecimento das populações indígenas, a falta de cuidado e assistência a sua saúde integral, a tomada de suas terras com o estabelecimento de um marco temporal fictício, tudo isso é injusto não só com as populações tradicionais do Brasil, mas também com o planeta que sofre quando os seus maiores defensores são desrespeitados.
Muito obrigada, Txai Suruí, por nos dar esperança de que existe um Brasil de pessoas melhores, por nos fazer lembrar o que é justiça!