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História de desigualdade

Nosso privilégio foi forjado à custa do sofrimento dos negros

Se olharmos ao nosso redor, vemos que a maioria das pessoas pobres, que residem em bairros distantes e com difícil acesso por transporte público, são negras. E isso não é de agora

Publicado em 24 de Junho de 2020 às 05:00

Públicado em 

24 jun 2020 às 05:00
Brunela Vincenzi

Colunista

Brunela Vincenzi

brunelavincenzi@hotmail.com

Os jovens negros estão entre as principais vítimas de homicídio
Os jovens negros estão entre as principais vítimas de homicídio Crédito: Agência Brasil
Nos tempos contemporâneos, muitos são os desafios que a vida apresenta a todos e a cada um de nós; mas, efetivamente, se pensarmos mais detidamente sobre o assunto, vemos que atualmente uma parte da população de nosso país sofre mais – e injustificadamente – do que outros.
Se olharmos ao nosso redor, vemos agora que a maioria das pessoas pobres, que residem em bairros distantes e com difícil acesso por transporte público, são negras. E isso não é de agora, isso se deve a um projeto de país construído ao longo de séculos de exploração. Se em 1500 os portugueses tentaram escravizar os nossos povos autóctones, é porque a opressão vem de lá e não de agora.
Nós, brancos e brancas, temos sim a responsabilidade histórica perante os povos indígenas do país, perante toda a população negra descendente de gerações que foram sequestradas do continente africano para servir ao modo de vida burguês que se implantou aqui nos trópicos.
Sim, a escravização dos negros, a exclusão social dos seus descendentes, o branqueamento do país por meio da contratação de trabalhadores europeus para as lavouras brasileiras, tudo isso foi um projeto de poder que continua em andamento.
Como disse o professor Silvio Almeida no Programa Roda Viva desta segunda-feira (22), o racismo estrutural no Brasil impede que sejamos uma verdadeira democracia, que haja igualdade de oportunidades e que seja colocado um fim na desigualdade social no país.
Todos brancos e brancas que acreditam não haver racismo no Brasil ou que pensem não ter praticado qualquer ato racista em sua vida, sinto dizer, estão enganados. O simples fato de aceitarmos de bom grado o privilégio de estarmos aqui hoje, na posição em que estamos, é fruto do privilégio forjado às custas de muito sofrimentos e do trabalho do povo negro no Brasil.
A Constituição de 1988 recepcionou alguns dos pleitos dos movimentos negros históricos e contemporâneos no Brasil, mas não conseguiu – nem de perto – pagar a dívida histórica que todos nós brasileiros e brasileiras brancos temos pelos sequestro e genocídio da população negra.
Temos também a obrigação de devolver o que roubamos dos povos indígenas, restituindo os territórios às 305 etnias que vivem hoje, ainda, a muito custo, no Brasil.
Tiramos a terra dos povos indígenas e sequestramos o povo negro das suas terras. E hoje, mesmo com todo o avanço legislativo, ainda há aqueles que ousam falar em racismo reverso, privilégios negros, e outros absurdos que é melhor nem repetir aqui neste texto.
Sim, somos culpados. Sim, devemos pedir perdão todos os dias pelo nosso existir que nega o direito de existir de outros povos, neste mesmo território que não nos pertence, nunca nos pertenceu.

Brunela Vincenzi

Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes. Redes sociais: @brunelavincenzi

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