A morte da cantora Marília Mendonça na última sexta-feira (5) causou a todas uma sensação de perda tão grande que é preciso analisar mais detidamente essa conexão invisível que as mulheres brasileiras passaram a ter, com o tempo, à cantora e suas músicas.
O Brasil, falemos de antemão, é um lugar musical: as crianças já nascem e crescem ouvindo ritmos inspiradas em seus pais e familiares. A vida se faz, aqui, em torno de uma musicalidade sempre presente, contamos os dias e as estações do ano a partir de músicas que marcam períodos de tempo nas nossas vidas.
Não seria de se estranhar, portanto, que a música de Marília marcasse um tempo específico para nós. E foi justamente isso que aconteceu, as músicas compostas e cantadas por ela marcam justamente o tempo de afirmação dos direitos das mulheres no Brasil, em especial contra tipos de violências que nos atingem diariamente em forma de preconceitos e agressões físicas.
Se contamos diversas ondas do feminismo mundial, começando pelo movimento sufragista (onda da cidadania), passando pela onda da sexualidade ( que tem como uma de suas expoentes Simone de Beauvoir), chegando à onda da interseccionalidade (quando os vários movimentos feministas se diferenciam e reconhecem a diversidade do que é ser mulher) e finalmente à do ativismo digital que vivemos hoje em dia, podemos ver aqui no Brasil uma sub-onda específica causada pelo feminismo de Marília.
O primeiro efeito do feminismo de Marília Mendonça é físico, ela ocupa espaços onde só homens estavam. Ela passa a fazer parte de um grupo seleto de compositores e cantores da música sertaneja, ela canta e fala como mulher para mulheres, se fazendo respeitar pelos homens que até então dominavam esses espaços. Não só os textos de suas músicas estão no feminino, como a sua apresentação no palco é diferente da que se via antes no campo dominado pela figura do homem dominador do sertanejo tradicional.
Em seguida, é preciso notar que as letras narram passagens que conectam as experiências de uma mulher com a de milhares de outras mulheres brasileiras, dentro de um gênero musical que se define como sofrência. Vejam que revolucionário: é a primeira vez que no mundo sertanejo a dor da mulher é expressamente mencionada em letras que se reproduzem nas rádios, TVs e aplicativos de músicas e vídeos, de forma infinita e sem barreiras.
Ora, sentir a dor específica de ser mulher e expressá-la publicamente em um país dominado pelo patriarcalismo é revolucionário. Marília fez isso, e pode ser que só tenhamos nos dado conta disso agora, depois de sua morte, quando a sua voz se calou e deixou em nós esse vazio que pede que alguém fale de novo o que estamos sentindo.
Vejamos o exemplo da letra da música "Alô Porteiro":
Alô porteiro, tô ligando pra te avisar
Esse homem que está aí
Ele não pode mais subir
Tá proibido de entrar
Essa música retrata a situação de uma mulher com uma medida protetiva em vigor contra um ex-companheiro violento, que está proibido de se aproximar dela. Essa especificidade brasileira só é possível de entender à luz da Lei Maria da Penha, que expressamente prevê a medida protetiva, que tem como uma das consequências que se avise ao porteiro do prédio que o agressor não pode mais entrar naquele lugar.
A importância de Marília fica clara aqui, quando imaginamos as milhões de mulheres que passam a cantar a letra da música e já sabem agora como agir solicitando a medida protetiva e ligando para o porteiro para avisar que o agressor não é mais bem-vindo ali.
Marília Mendonça tinha certamente consciência desse seu papel no mundo e o desempenhou muito bem, não deixou de falar, por exemplo, da questão da violência de gênero, encabeçando campanhas para o combate à violência contra mulheres. Por outras vezes, mesmo não indo pelo caminho do enfrentamento direto, ela deixou seu recado de forma sutil nos textos de suas músicas e na forma como se apresentava no palco.