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Crime

Por que a violência contra a mulher no ES nos intriga tanto?

Não é de hoje que o problema se apresenta para nós, ao passo que são várias as pesquisadoras que vêm se dedicando ao tema com propostas de soluções diferenciadas

Publicado em 22 de Março de 2023 às 00:15

Públicado em 

22 mar 2023 às 00:15
Brunela Vincenzi

Colunista

Brunela Vincenzi

brunelavincenzi@hotmail.com

A questão da violência contra a mulher aqui no Espírito Santo continua intrigando especialistas e leigos. No Mapa da Violência de 2015, Vitória aparecia como a capital com maior taxa de feminicídios do Brasil. Em 2013, o Espírito Santo era o estado onde mais morriam mulheres negras, ficando em segundo lugar em relação a mulheres não negras.
Por anos, a violência de gênero no estado foi objeto de estudos e pesquisas, esse esforço promoveu uma redução por alguns anos e, agora, em 2021 e 2022 os números vêm aumentando novamente.
Tanto o primeiro governo Casagrande, como o segundo que começou este ano vem anunciando algumas frentes de ação para o combate à violência de gênero, mas quanto mais analisamos os dados, mais frustrantes os prognósticos de melhora neste quadro. Reiterados são os alertas da sociedade civil e de estudiosos, demonstrando que as políticas públicas adotadas não são suficientes e não trazem os efeitos pretendidos pelo governo. Paliativos para a divulgação e publicidade, dentro de uma lógica que parece até comercial.
É preciso enxergar que o patriarcalismo é uma chaga que permeia as instituições e as estruturas da sociedade capixaba. Estudos mostram que inicialmente trazida por imigrantes europeus, a ideia patriarcal de que homens devem (e tem) o poder sobre corpos femininos sobrevive na nossa sociedade graças a muitas adaptações ocorridas ao longo de anos. Essas adaptações permitiram que a crença no valor absoluto do patriarcalismo se adaptasse aos mais diversos períodos da nossa história.
A perversidade da convicção de que o homem detém o poder sobre os corpos femininos é o que autoriza o ato máximo da violência física: o feminicídio. O sujeito, confiante que está na ideologia, naturalizada em todos os lugares sociais, de que a mulher pertence ao homem (seja ao pai, ao marido, ao namorado ou qualquer um interessado) sente-se autorizado a cometer o crime.
Vitória - Vigília pelo fim dos feminicídios e da violência contra as mulheres, realizado na Praça Costa Pereira, Centro de Vitória
Vigília pelo fim dos feminicídios e da violência contra as mulheres, realizado na Praça Costa Pereira, Centro de Vitória em 2021 Crédito: Fernando Madeira
Tão arraigada está a crença, que ela se reflete em piadas no dia a dia, em condutas repetidas nas famílias e nos locais de trabalho, tudo isso tido como normal, naturalizado em nosso dia a dia. A naturalização, todavia, é o que permite que o ato extremo de violência seja cometido.
Naturalizar significa aceitar e compactuar com o crime. Por via de consequência, o estado que não adota as medidas necessárias, não atende às demandas da sociedade, dos coletivos de mulheres, das vítimas, dos familiares das vítimas é, também, assassino.
Indagamos porque mesmo com indicadores, desde meados do ano passado, de que os números de casos subiriam, o enfrentamento não vem se dando de maneira diferenciada, ou seja, a partir de um recorte de raça e levando-se em conta a localidade dos crimes. Veja-se que a maioria das mulheres vítimas de violência são negras. Outro dado é que a forma como o crime acontece na zona rural é diverso da que se vê na área urbana.
Estacionar um ônibus rosa para que mulheres denunciem a violência numa cidade grande produz um efeito totalmente diferente do que seria produzido em cidades do interior. Se uma mulher é vista entrando nesse ônibus em uma cidade de 30 mil habitantes, a vida dela, provavelmente, estará em risco a partir de então.
O gestor público deve demonstrar sensibilidade com relação à questão, que é tão delicada para a sociedade capixaba. Não é de hoje que o problema se apresenta para nós, ao passo que são várias as pesquisadoras que vêm se dedicando ao tema com propostas de soluções diferenciadas. Tratar todos os casos, todas as mulheres, todas as localidades da mesma forma é, no mínimo, falta de respeito às diferenças e às mais diversas identidades.

Brunela Vincenzi

Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes. Redes sociais: @brunelavincenzi

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