O papel da solidariedade e da cooperação no mundo pós-Covid será essencial para o estabelecimento de um nova forma de vida em sociedade. Muito se tem falado sobre um “novo normal” que irá se estabelecer nessa era posterior à pandemia. Alguns prognósticos são positivos, outros nem tanto.
O mais importante, talvez, seja a capacidade que os seres humanos terão que desenvolver para solidarizar-se com outros seres humanos e cooperar com eles em projetos para um planeta melhor. Uma lição aprendida com a pandemia foi a de que sozinhos não somos nada, mas juntos podemos construir hospitais de campanha, abrir mais leitos de UTI em tempo recorde e desenvolver diferentes tipos de vacinas.
Isso tudo, porém, de nada valerá para o tempo pós-Covid, se não conseguirmos sentir a dor do outro, mesmo se não conhecermos a pessoa que se apresenta diante de nós com uma dor enorme. Outro dia uma frase me levou a essa reflexão, ouvi o seguinte: “Não a conheço, por isso não vou opinar sobre a sua saúde”, estando implícito na frase que a pessoa não se preocupava com a saúde de pessoas que não lhe eram conhecidas com a mesma intensidade que se preocuparia se a pessoa fosse um familiar ou alguém próximo.
Isso não mostra que essa pessoa é uma pessoa ruim, pelo contrário, mostra que numa tentativa hercúlea de sobrevivermos durante tempos difíceis, nós, seres humanos, vamos criando estratégias para blindarmos nossos afetos de compaixão, de medo, de raiva e até mesmo de amor. Visando sofrer menos, nos protegemos tentando não sentir nada.
Viver sem sentimentos, todavia, é uma questão inócua, um teatro mal encenado, pois tudo que vivemos é cheio de afetos, as pessoas que nos cercam devem nos comover, nos levar a chorar ou a sorrir, a amar ou a odiar. Aqueles que não têm afetos diante das inúmeras situações que a vida lhes apresenta por certo têm algo errado.
Não sentir-se afetado pelas dores de alguém em nome de uma suposta racionalidade, visando proteger a si mesmo, pode ser, por um lado, um retrato de falta de empatia usual nos tempos contemporâneos. Mas, por outro lado, pode ser também uma tentativa de não se afetar para não sofrer junto com as pessoas.
É lógico que o sofrimento dói, machuca, permanece em nós por mais tempo do que gostaríamos, e que é natural tentar evitá-lo. Mas o mundo está cheio de sofrimentos, e as tecnologias de informação que passaram a permear o nosso dia a dia neste século não nos deixam – verdadeiramente – nos alhear às dores dos outros.
Não há nada demais, parece-nos, então, em chorar junto com aqueles que estão nas ruas em busca de um abrigo ou de um prato de comida. Nem é ruim lamentar a derrota nas disputas políticas quando o seu candidato ou candidata sair derrotado(a). Mais ainda, nada há de ruim em expressar esses afetos em público, demonstrando que somos seres humanos.
Os afetos importam mais do que discursos racionais que viermos um dia a proferir diante de nossos amigos ou seguidores, negar-se a se deixar afetar irá nos afastar cada vez mais de um mundo melhor, onde a paz, a solidariedade e a cooperação ditariam a ordem do dia.