O último sábado, dia 6 de agosto, marcou os 77 anos do lançamento da bomba nuclear sobre a cidade de Hiroshima, no Japão. Três dias depois, os Estados Unidos lançariam outra bomba nuclear sobre a cidade de Nagasaki, pondo fim à Segunda Guerra Mundial.
A experiência das duas bombas nucleares lançadas sobre as cidades japonesas fez com que a humanidade pensasse e negociasse por muito tempo tratados internacionais para evitar a proliferação de armas nucleares e o seu uso, porém, antes que esses tratados fossem assinados algumas nações já haviam adquirido um arsenal atômico, de modo que parte dele ainda existe até hoje.
Inicialmente, logo após a Segunda Guerra Mundial, os seguintes países declararam possuir ou estar em vias de possuir armas nucleares: são eles os Estados Unidos, a Rússia, a China, a França e o Reino Unido. Todavia, mesmo depois de pactuada a não proliferação (o tratado foi aberto para assinatura em 1968 e entrou em vigor em 1970), outras nações do mundo desenvolveram a tecnologia nuclear de modo a usá-la para armas de guerra, são elas: Israel, Índia, Paquistão e Coreia do Norte. Desconfia-se, ainda, que o Irã esteja em vias de desenvolver tal armamento.
De acordo com o secretário-geral das Nações Unidas (ONU), Antonio Guterres, existem hoje em dia aproximadamente 13 mil armas desse tipo armazenadas ao redor do planeta. Tal número é um dado extremamente alarmante, principalmente se considerarmos que uma quantidade reduzida delas pode por fim à vida na Terra como a conhecemos hoje.
Esse dado foi mencionado por Guterres durante o seu discurso de abertura da 10ª Conferência do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TPN) que está acontecendo desde o dia 1º de agosto, em Nova York. Em seu discurso, o secretário-geral da ONU afirmou que a humanidade está a "um erro de cálculo" de sofrer uma "aniquilação".
O discurso de Guterres, conhecido pelo seu tom apaziguador, atingiu um acento grave que nos deve fazer a todos refletir. Segundo ele:
"Hoje, a humanidade está a um mal entendido, a um erro de cálculo de uma aniquilação nuclear. Nós fomos extraordinariamente sortudos até agora. Mas sorte não é estratégia, tampouco um escudo contra as tensões geopolíticas que fervem até se transformarem em um conflito nuclear"
Seriam as ameaças de Vladimir Putin sobre um possível uso do arsenal atômico da Rússia que teria levado o secretário-geral a externar tamanha preocupação? O medo de viver sob a ameaça de uma guerra nuclear marcou toda a Guerra Fria, em especial o período entre 1947 e 1991, com o fim da União Soviética.
Todos os que viveram aquele período, mas também os que conhecem a fragilidade de uma paz tutelada, temem que um deslize qualquer inicie uma guerra nuclear. Numa reportagem publicada no dia 2 de agosto, a revista The Economist ("What would push the West and Russia to nuclear war?") traz depoimentos de vários especialistas sobre estratégias de guerra, armas nucleares e política internacional para demonstrar que não há certeza se Putin irá ou não usar armas nucleares contra a Ucrânia e/ou contra os países da Otan.
Segundo a revista, é por conta dessa incerteza entre os maiores especialistas e consultores norte-americanos que Joe Biden, presidente dos Estados Unidos, ainda hesita e vem enviando de forma lenta e gradual armamentos para a Ucrânia. Uma estratégia mais agressiva poderia ser o estopim para o agravamento da guerra (no jargão dos especialista uma “escalada vertical” da guerra envolveria o uso de armas nucleares e/ou biológicas contra os países da Otan).
Diante de tal cenário, a melhor solução para a humanidade seria que os países que participam da 10ª Conferência do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares alcancem um acordo sobre a redução em um prazo razoável e próximo do número de armas nucleares armazenadas no mundo. E que, enfim, a tecnologia nuclear seja usada somente para fins pacíficos.