Quando o Ministério da Saúde mudou a forma de contabilização e divulgação dos indicadores do coronavírus no Brasil, mostrou-se ainda mais indispensável o trabalho livre e imparcial da imprensa, mecanismo legítimo de informar à sociedade. No afã de esquivar-se da sequência de erros cometidos no combate à pandemia, o governo federal quer dificultar o acesso da população à realidade do panorama da Covid-19 no Brasil, inclusive, manipulando e maquiando dados, levantando sérias e fundadas dúvidas acerca da credibilidade das informações divulgadas pelo Ministério da Saúde, que ainda está sob a condução de um ministro interino sem nenhuma formação ou experiência em saúde pública.
Ao que tudo indica, o Ministério da Saúde está sem um titular técnico porque nenhum profissional sério aceitaria colocar sua reputação em risco para satisfazer aos caprichos do presidente da República, assecla dos movimentos anticiência. Basta lembrar que os dois ministros da Saúde do atual governo (Luiz Mandetta e Nelson Teich) pediram exoneração porque o presidente não aceita que a pandemia seja tratada de forma técnica e pautada no conhecimento científico.
" De tanto aplaudir a ocultação de mortos pela ditadura militar no Brasil, Bolsonaro quer seguir a cartilha de seus ídolos, quer ocultar o número de mortos pelo coronavírus no país"
Fontes palacianas afirmaram que a ordem para camuflar os dados oficiais da pandemia no Brasil partiu do presidente, que não queria que fosse divulgado que mais de mil óbitos ocorreram em 24 horas no país. Além disso, para evadir-se da cobertura da mídia, sobretudo a do "Jornal Nacional", Bolsonaro determinou que os boletins da Covid-19 fossem publicados apenas no fim da noite.
O próprio presidente, ao ser questionado publicamente, afirmou que “acabou matéria do Jornal Nacional" e que "ninguém tem que correr para atender a Globo", deixando evidente que a motivação da mudança na sistemática de divulgação dos dados tem o escopo de prejudicar o trabalho jornalístico e a divulgação de informações. O presidente não quer que os brasileiros conheçam a verdade, porque a verdade é capaz de libertar!
Ao tentar ocultar e manipular dados sobre a pandemia, além de aumentar o descrédito internacional do Brasil, Bolsonaro adota a mesma estratégia de regimes autoritários de países como a Coreia do Norte, Venezuela e Turcomenistão. No Turcomenistão, que fez parte da União Soviética, o ditador proíbe o uso de máscaras e não permite falar em coronavírus, sob pena de prisão. É bom lembrar que os bolsonaristas acusam a China de ser responsável pela pandemia, aludindo que aquele país ocultou informações sobre o coronavírus.
No início da pandemia, Bolsonaro disse que o coronavírus era uma histeria e invenção da imprensa, só uma “gripezinha”, segundo ele. Conforme o número de óbitos ia crescendo, o discurso se mantinha: “alguns idosos vão morrer”; “o coronavírus está indo embora”; “não sou coveiro”; “e daí?!”; “a culpa é dos governadores e prefeitos”. Chegou até a propor a realização de um churrasco quando o país contabilizava dez mil óbitos.
Agora, com a pandemia praticamente fora de controle, o presidente determinou que o Ministério da Saúde escondesse o número de mortes. Mas Bolsonaro estava certo quando disse que o Brasil não seria igual à Itália. De fato, não foi igual, foi muito pior, e hoje o Brasil tem um dos maiores números de óbitos e casos confirmados de coronavírus.
De tanto aplaudir a ocultação de mortos pela ditadura militar no Brasil, Bolsonaro quer seguir a cartilha de seus ídolos, quer ocultar o número de mortos pelo coronavírus no país.
Apesar de a publicidade ser fundamental no regime democrático, Bolsonaro se recusa a cumprir o dever constitucional, legal e moral de dar transparência aos atos da Administração Pública. Assim, se Bolsonaro não cumpre esse dever de transparência, a imprensa reiterou seu compromisso com a verdade e com a informação de qualidade. A imprensa séria é a fonte mais confiável de informações e ela incomoda ao governo justamente por isso: a imprensa informa, enquanto o governo quer difundir a dúvida e a mentira para resguardar interesses políticos.