O tradicional Bloco Surpresa, que completa quatro décadas neste ano, levou às ruas da Barra do Jucu um enredo sobre a disputa ao governo do Espírito Santo em 2026, criticando o adiantamento do debate eleitoral. Com o tema “No Reino Barrense, a Coroa é do Povo”, o desfile apresentou um Cavalo de Troia, descrito como um “presente de grego” ao governador, e um castelo cenográfico do Palácio Anchieta, em que soldados, que aludem a políticos capixabas, tentavam conquistar o posto do rei.
A crítica irônica e contundente do bloco carnavalesco ao adiantamento da corrida eleitoral de 2026 encontra eco perfeito em uma prática que já se consolidou como regra não escrita na política capixaba e brasileira: o uso sistemático da máquina pública como palco privilegiado para a promoção pessoal de quem deveria estar exclusivamente dedicado à gestão. Quando a alegoria expõe, com a irreverência que o samba permite, a disputa pelo Palácio Anchieta se antecipando ao pleito, ela traduz com precisão cirúrgica o que ocorre nos bastidores do poder.
Essa antecipação do debate sucessório não é apenas um exercício inofensivo de futurologia política ou um passatempo para analistas. Lamentavelmente, ela acaba por ditar o rumo imediato de prefeitos, governadores e demais gestores que, em vez de se dedicarem integralmente aos mandatos para os quais foram eleitos, já atuam mirando unicamente novos cargos, transformando a administração pública em mero trampolim eleitoral e a população refém de uma gestão distraída dos problemas reais, mas conectada ao marketing.
Essa distorção estrutural do sistema político se manifesta em gestos aparentemente banais do cotidiano, mas que carregam um significado profundo. Chega a ser constrangedor que, em entrevistas ao vivo, ao anunciarem uma obra, uma ação social ou um benefício qualquer, agentes públicos mencionem nominalmente o prefeito ou o governador, como se a realização fosse um feito pessoal em vez de uma obrigação institucional inerente ao cargo que ocupam.
A prestação de contas dos detentores de mandatos públicos ao cidadão, a despeito de ser um dever, acaba se convertendo em propaganda velada e sistemática. O correto, do ponto de vista republicano e da mais elementar ética administrativa, seria referir-se ao município, ao Estado ou à pasta responsável. Afinal de contas, uma escola é do município, não do prefeito; um hospital é do Estado, não do governador.
Também chama a atenção, como informado em detalhes na coluna de Letícia Gonçalves, o movimento físico de prefeitos pelo território estadual, como se já estivessem em franca campanha eleitoral. Prefeitos que deveriam estar diuturnamente em seus gabinetes ou nas ruas de suas cidades, cuidando do interesse público, passam a circular pelo estado em verdadeiras peregrinações políticas em busca de alianças, articulando apoios e viabilizando candidaturas futuras a sabe-se lá qual cargo.
O Bloco Surpresa, com sua irreverência popular e sua capacidade única de sintetizar os anseios e as críticas da sociedade, apenas expôs, através de alegorias e fantasias, o que os tribunais eleitorais, por vezes amarrados a formalismos interpretativos que exigem elementos explícitos para configurar o ilícito, têm enorme dificuldade em coibir: a transformação da política em profissão autocentrada, em que o foco não é servir ao povo, mas conquistar e manter a coroa a qualquer custo. A coroa pertence ao povo.