Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Carnaval de Vitória

A vitória da Boa Vista sobre o obscurantismo e o autoritarismo

A Independentes de Boa Vista deu provas incontestáveis de que soube utilizar com excelência os recursos públicos recebidos, transformando-os em benefício para a comunidade e em uma apresentação de alto nível artístico

Publicado em 28 de Fevereiro de 2025 às 05:00

Públicado em 

28 fev 2025 às 05:00
Caio Neri

Colunista

Caio Neri

caiocwneri@gmail.com

A fala do prefeito de Cariacica, Euclério Sampaio, que ameaçou interromper repasses de verbas públicas à escola de samba Independentes de Boa Vista é sintoma flagrante de desconhecimento e preconceito. O imbróglio foi criado após a agremiação da cidade ter feito alusão ao Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) no desfile do Carnaval de Vitória no último fim de semana.
À primeira vista, a irresignação do prefeito poderia levar um observador desavisado a crer que a escola de samba houvesse empregado recursos públicos de maneira indevida, para fazer um enredo em homenagem ao Primeiro Comando da Capital, ao Comando Vermelho, ao Primeiro Comando de Vitória ou algo similar. No entanto, a realidade é bem distante disso.
A Boa Vista prestou uma bela e digna homenagem ao renomado fotógrafo Sebastião Salgado. Na oitava ala do desfile, intitulada “Terra” - mesmo título do livro de autoria Salgado - retratou integrantes do MST, em alusão ao trecho da obra do fotógrafo que retrata o massacre de sem-terras em Eldorado do Carajás, que chocou o Brasil e o mundo em 1996.
Desfile da Boa Vista contou com referência ao MST
Desfile da Boa Vista contou com referência ao MST Crédito: Reprodução | Liesges
Ao equiparar o MST a “movimentos criminosos”, com as devidas vênias, o prefeito demonstra profunda ignorância quanto à essência do movimento, cuja luta se concentra na reforma agrária e na possibilidade de destinar terras improdutivas a famílias que desejam trabalhar na agricultura, mas carecem de posses. Esse desconhecimento gera um preconceito perigoso, que associa movimentos sociais legítimos a organizações ilícitas, distorcendo a realidade e alimentando estigmas injustos.
A propósito, a pretensão do MST, em tese, não é ilícita, pelo contrário. A própria Constituição é expressa ao estabelecer que compete à União desapropriar por interesse social, para fins de reforma agrária, o imóvel rural que não esteja cumprindo sua função social, mediante prévia e justa indenização em títulos da dívida agrária, com cláusula de preservação do valor real, resgatáveis no prazo de até vinte anos, a partir do segundo ano de sua emissão, e cuja utilização é definida em lei.
A postura do prefeito, além de intolerante, revela-se autoritária ao tratar um movimento social como criminoso simplesmente por divergir de suas pautas. Não é admissível, em um Estado democrático de Direito, estigmatizar aqueles que pensam diferente, rotulando-os como criminosos.
O autoritarismo do gestor municipal torna-se ainda mais evidente ao misturar suas convicções pessoais com o tratamento que deve ser dado à coisa pública. Recursos públicos, inclusive os destinados à cultura, não são propriedade do prefeito, de vereadores ou de partidos políticos; são, como o próprio nome indica, públicos. Essa é a essência do regime republicano, que exige impessoalidade e objetividade na gestão.
Por outro lado, a Independentes de Boa Vista deu provas incontestáveis de que soube utilizar com excelência os recursos públicos recebidos, transformando-os em benefício para a comunidade e em uma apresentação de alto nível artístico. A escola não apenas cumpriu sua missão cultural, mas também sagrou-se vencedora em uma disputa acirrada, destacando-se pela qualidade de seu desfile.
O troféu conquistado pela Boa Vista no Carnaval de Vitória de 2025 simboliza mais do que uma vitória artística. Representa o triunfo da liberdade de expressão e da cultura sobre o obscurantismo e o autoritarismo. Em um momento em que a intolerância e o preconceito tentam se impor, a escola de samba reafirmou o poder da arte como instrumento de reflexão, resistência e transformação social. Que essa vitória sirva de exemplo e inspiração para que a cultura continue a florescer, mesmo diante de adversidades e incompreensões.

Caio Neri

E graduado em Direito pela Ufes e assessor juridico do Ministerio Publico Federal (MPF). Questoes de cidadania e sociedade tem destaque neste espaco.

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Editais e Avisos - 21/04/2026
Liga Ouro de basquete 2026: Joaçaba elimina Cetaf
Cetaf perde Jogo 3 e é eliminado da Liga Ouro de basquete
Imagem de destaque
A revolta com soldado de Israel que vandalizou estátua de Jesus no Líbano

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados