Uma recente reportagem da Gazeta trouxe à tona um dado alarmante: as áreas com risco de inundação em Vitória equivalem a mais de 12 vezes o tamanho do Parque Pedra da Cebola. São mais de 466 hectares classificados como de risco hidrológico alto ou muito alto. A informação, extraída da Plataforma Natureza On, escancara a fragilidade da capital capixaba diante dos eventos climáticos extremos que, ano após ano, tornam-se mais frequentes e devastadores, como ocorreu recentemente na Zona da Mata Mineira.
Se o problema é conhecido e mapeado, por que a solução parece sempre ficar para depois? A resposta, infelizmente, reside na crônica falta de prioridade ao meio ambiente, na falta de planejamento e na reatividade do poder público. Não é novidade que o Brasil sofre com tragédias ambientais decorrentes das chuvas, mas Vitória, até muito recentemente, fazia parte do seleto e vergonhoso grupo das 14 capitais sem um plano municipal de mudanças climáticas, conforme revelou um estudo do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN) em maio de 2025.
Foi apenas após outra reportagem da Gazeta expor a situação, mostrando que a capital capixaba era a única do Sudeste nessa condição de negligência, que o contrato para elaboração do plano foi finalmente firmado no final do ano passado. Trata-se de um contrato de R$ 1.593.841,46 com a empresa I Care Estratégia Ambiental Ltda., financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
Enquanto isso, no plano das ações concretas, a contradição se aprofunda. O município, por outro lado, por meio de suas notas e publicações oficiais, aduz que já promoveu o plantio de milhares de árvores, mas quem caminha pela cidade vê o cinza do concreto avançando sobre o verde que resta. O programa “Vitória de Frente para o Mar”, com suas obras no Canal de Camburi, é o retrato mais fiel dessa obsessão urbanística em torno do concreto, em detrimento do verde.
Com previsão de entrega para meados de 2026, a requalificação de 3,3 km da orla promete ciclovias, calçadões, píeres e áreas comerciais. É um projeto ambicioso, mas que parece ignorar a principal lição que as enchentes nos ensinam: a água precisa de espaço e de solo permeável para ser absorvida. Em vez de mais concreto, que agrava o escoamento superficial e sobrecarrega a drenagem, deveríamos estar discutindo a criação de parques lineares, lagoas pluviais e mais áreas verdes que funcionassem como esponjas, absorvendo o excesso das chuvas e mitigando os riscos de inundação apontados pela própria reportagem.
É a natureza reocupando seu lugar, cobrando o preço pela impermeabilização desenfreada do solo. Não adianta gastar milhões em um plano climático se, na prática, a cidade continua sendo desenhada para o carro, para o concreto e para o asfalto, e não para as pessoas e para a resiliência ambiental.