Como apontavam os principais institutos de pesquisa, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi o candidato que obteve maior votação no primeiro turno das eleições de 2022 e, por pouco, a disputa presidencial foi decidida em primeiro turno. Ainda que os apoiadores de Jair Bolsonaro tentem acusar os institutos de pesquisa, fato é que as pesquisas eleitorais estiveram bem próximas de suas margens de erro. Mesmo porque pesquisas não são uma premonição, mas um indicativo de como pensa o eleitor no momento em que é entrevistado.
Algo que pode ter influenciado um desempenho melhor de Bolsonaro nas urnas que nas pesquisas talvez seja o fato de que muitos decidem-se sobre o voto nos momentos finais de escolha, em que pode ter pesado o “voto útil” contra o PT, já que havia a probabilidade de Lula ganhar no primeiro turno.
Em termos objetivos, considerando-se que, em tese, a maioria dos votos recebidos por Lula e Bolsonaro serão replicados no segundo turno, o caminho para Lula vencer seria menor, já que, nesse contexto, cerca de 1,6% o separaram da maioria absoluta dos votos válidos, enquanto Bolsonaro precisa de 6,8%. Isso sem contar que ambos os candidatos estão em estabilidade tanto quanto à intenção de votos quanto à rejeição. Outro ponto negativo para Bolsonaro, que não conseguiu se tornar menos rejeitado que Lula.
O ex-presidente Lula também parece largar na frente quando se trata da capacidade de atrair os eleitores que votaram em outros candidatos, em especial, Ciro Gomes e Simone Tebet. O apoio de Tebet e de Ciro à campanha de Lula e Alckmin não surpreendeu, haja vista que a despeito de críticas ao PT, elas não são maiores que o abismo que separa as candidaturas da “terceira via” da postura ideológica de Bolsonaro: negacionismo; disseminação de notícias inverídicas; menosprezo da pandemia e deboche dos mortos; falas hostis a mulheres, negros, indígenas, nordestinos e ao público LGBTQIA+; ataques contumazes à democracia, às instituições, aos jornalistas e a todos aqueles que ousem discordar do que pensa a extrema direita brasileira.
Já a campanha do petista terá que enfrentar um inimigo também muito perigoso, a taxa de abstenção. Lula precisará assegurar que, minimamente, todos aqueles que o escolheram no primeiro turno voltem às urnas no último domingo de outubro, uma missão que será mais árdua nos estados em que não houver segundo turno para governador. Além disso, outro nó górdio para a campanha petista pode ser a necessidade de rebater informações falsas ou questionáveis, como as mensagens que associam Lula ao aborto, à legalização das drogas e ao fechamento de igrejas.
Para vencer as eleições, por maior que seja a aversão ou o ódio de muitos a Lula e ao PT, o bolsonarismo há de fazer aquilo que não demonstra ter muita habilidade: dialogar com quem não está na bolha da extrema direita. Nesse sentido, parecem não militar a favor de Bolsonaro bandeiras como o combate à corrupção, a questão econômica e a fome no Brasil.
O eleitor independente dificilmente acreditará que Bolsonaro é melhor que Lula quando se trata de corrupção ou gestão da economia do país. Não custa lembrar que os dois processos em que Lula foi condenado por Sérgio Moro por supostos crimes envolvendo o triplex e o sítio de Atibaia foram anulados. E, enquanto na conta de Lula as suspeitas recaíam sobre dois bens, Bolsonaro ainda não conseguiu apresentar explicações razoáveis sobre os mais de cem imóveis comprados por seus familiares, sendo que mais de cinquenta deles foram adquiridos com dinheiro em espécie. Sem esquecer das denúncias, na gestão atual, de corrupção no Ministério da Educação e em empresas públicas como a Codevasf.
Lula tem a seu favor o histórico positivo de seu governo e o apoio de líderes históricos e de peso, inclusive, de adversários em tempos pretéritos, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o ex-ministro José Serra. Já Bolsonaro conta com a máquina pública e um movimento antipetista capilarizado.