Depois do gabinete paralelo no Ministério da Saúde, o jornal “O Estado de São Paulo” apontou a existência de um gabinete paralelo no Ministério da Educação durante a gestão do pastor Milton Ribeiro, aduzindo a uma forte influência em verbas e na agenda do MEC por parte de pastores que oficialmente não compõem o governo.
O jornal “Folha de São Paulo” também divulgou o áudio de uma reunião em que o ex-ministro da Educação dizia aos presentes que o presidente Jair Bolsonaro teria feito um “pedido especial” para “atender a todos os que são amigos do pastor Gilmar”.
No áudio, além do pastor Gilmar, o ex-ministro Milton Ribeiro também se referiu ao pastor Arilton. Gilmar Santos é presidente da Convenção Nacional de Igrejas e Ministros das Assembleias de Deus no Brasil Cristo Para Todos (Conimadb) e Arilton Moura também é da Assembleia de Deus, mas, apesar de nenhum deles ter cargo no governo, ambos participaram de diversas reuniões com autoridades nos últimos anos.
Após a divulgação do áudio o prefeito do município de Luis Domingues, no Maranhão, teria revelado que recebeu proposta do pastor Arilton Moura de entregar R$ 15 mil e 1 kg de ouro como forma de adiantamento para facilitar o acesso a recursos do Ministério da Educação.
O ex-ministro Milton Ribeiro, que assumiu o MEC no lugar de Abraham Weintraub deu prosseguimento a uma política de emparelhamento das instituições públicas em prol de interesses privados e para fazer proselitismo político-ideológico. Em qualquer país sério, nessas condições, o ministro teria perdido o cargo por decisão de ofício do presidente, que relutou em fazer.
Bolsonaro, inclusive, como fez em todos os casos de ministros e aliados próximos investigados por atos ilícitos, preferiu ficar ao lado dos investigados. Quanto a Milton Ribeiro, quando ele ainda era ministro da Educação e em meio a inúmeras denúncias, Bolsonaro disse que não só colocaria a mão no fogo por Ribeiro, como colocaria a “cara no fogo, a cara todinha no fogo”.
Bolsonaro colocou as mãos e a cara no fogo por Milton Ribeiro e se queimou. Na manhã de quarta-feira, 22 de junho, Milton Ribeiro foi alvo de uma operação da Polícia Federal e se tornou o primeiro ex-ministro da Educação dos tempos atuais preso por suspeita de corrupção na pasta, que concentra boa parte dos recursos federais.
A operação contra Milton Ribeiro veio tarde, mas antes tarde do que nunca. Vivemos numa república, em que deve prevalecer o interesse coletivo, mesmo porque a Constituição estabelece que aqueles que estão no poder não são os donos do poder, mas exercentes.
O poder, tal como está definido na Constituição, Lei Maior do Estado brasileiro, pertence ao povo! Por isso, todo agente público que usa de seu cargo para defender interesses pessoais ou de um certo grupo em prejuízo aos demais desvirtua-se dos valores republicanos.
Grave se mostra a interferência de líderes religiosos ligados ao governo em ações estatais. O Brasil é um país laico, que não se submete a uma religião oficial e, justamente por isso, não pode permitir influenciar-se por preceitos ou interesses religiosos, da mesma forma que têm o dever de respeitar, em condições de igualdade, todas as religiões.
Foi graças à Reforma Protestante que hoje, na maior parte do planeta, os Estados não possuem religiões oficiais, respeitando todas. Àquela época, Martinho Lutero já havia constatado que a mistura da religião com o Estado permitia que a corrupção de um domínio contaminasse o outro.
Bolsonaro colocou a cara toda no fogo por Milton Ribeiro e se queimou!