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Segurança

Carnaval de rua no Centro de Vitória: limitar horário não funcionou

O ônus imposto aos moradores do Centro pelas festas é viável de ser partilhado com outros bairros. Eventualmente, se toda a festividade não se concentrasse numa só região, os moradores locais poderiam ser mais tolerantes

Publicado em 16 de Fevereiro de 2024 às 01:20

Públicado em 

16 fev 2024 às 01:20
Caio Neri

Colunista

Caio Neri

caiocwneri@gmail.com

Após limitar o horário de circulação dos blocos de rua de 11h às 19h, a prefeitura de Vitória recuou. O horário definido pelo município passou a ser um pouco mais cedo, das 8h às 19h. A limitação foi defendida por uns, sobretudo os moradores do Centro da Capital, mas criticada por outros. Se a intenção da restrição de horários visava assegurar tranquilidade aos vizinhos das festividades, aparentemente, falhou.
Durante o dia a folia transcorreu sem grandes confusões. Entretanto, quando o sol se pôs, o Centro foi cenário de arrastões, tiros e confusão entre militares e aqueles que insistiam em permanecer nas ruas.
Isso porque a limitação de horários determinada pelo município, apesar de formal, parece não ter sido bem recebida por muitos daqueles que queriam curtir os blocos de rua. É a popular “lei que não pegou”. Não adiantou proibir as concentrações após as 19h, elas ocorreram e em desordem.
As forças policiais e os agentes municipais deveriam ter previsto a possibilidade de que muitos foliões não respeitariam as limitações e traçar estratégias no intuito de evitar a necessidade de confronto direto e dispersão forçada. Os arruaceiros deveriam ser separados dos que apenas queriam se divertir.
É certo, pois, a inexistência de direitos absolutos. Daí a possibilidade, senão, a necessidade de o poder público regulamentar os espaços e demais regras para organizar eventos como o Carnaval. Não se pode, todavia, confundir regulamentação com proibição ou censura.
De um lado, muitos querendo aproveitar o carnaval para curtir e se divertir pelas ruas, de outro, moradores dos bairros locais com o direito ao sossego e ao repouso noturno. Ambos os interesses em aparente colisão são legítimos e merecem tutela. Surge, então, a necessidade de conciliá-los, sem que a proteção de um signifique o sacrifício do outro.
Assim como se pode constatar que a limitação de horários não deu certo, é possível afirmar que a tomada de decisão dos próximos carnavais demandará maior diálogo entre as autoridades e a sociedade. Aliás, a falta de maior espaço de debates antes de se definir as regras pode ter sido fator fundamental para que muitos simplesmente ignorassem as normas.
PM usa bomba e bala de borracha pelo 2º dia após blocos no Centro de Vitória
PM usa bomba e bala de borracha pelo 2º dia após blocos no Centro de Vitória Crédito: Leitor | A Gazeta
Como já ocorre em inúmeras cidades do país, Vitória deveria cogitar a realização de eventos no horário noturno durante o carnaval. Mesmo porque o calor capixaba é convidativo para quem quer aproveitar os blocos de rua sem o risco de uma insolação.
O ônus imposto aos moradores do Centro pelas festas é viável de ser partilhado com outros bairros. Eventualmente, se toda a festividade não se concentrasse numa só região, os moradores locais poderiam ser mais tolerantes.
Se o carnaval do Brasil começa em Vitória, a cidade não pode se fechar totalmente à noite, ao menos nos dias mais fortes da folia. Cabe ao poder público, então, conciliar os direitos envolvidos, definindo, por exemplo, áreas e regras para a circulação de blocos noturnos.

Caio Neri

E graduado em Direito pela Ufes e assessor juridico do Ministerio Publico Federal (MPF). Questoes de cidadania e sociedade tem destaque neste espaco.

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