Após mais de 33 anos filiado ao Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), na última semana, Geraldo Alckmin comunicou sua desfiliação do ninho tucano, aludindo ser tempo de mudança e de traçar um novo caminho. Alckmin, que é médico, foi um dos fundadores do PSDB e, com uma vida política extensa, já foi eleito vereador, prefeito, deputado estadual e federal e foi governador de São Paulo em quatro ocasiões.
Alckmin já disputou a presidência pelo PSDB em 2006 e 2018, sendo que em 2006 concorreu diretamente com Lula, que buscava a reeleição. Se em 2006 Alckmin teve um desempenho extraordinário nas urnas, o mesmo não se repetiu em 2018, quando setores mais à direita no PSDB, encabeçados por João Dória, praticamente abandonaram a campanha de Alckmin para tentar surfar na onda do bolsonarismo.
Desde então ficou mais uma rusga no ninho tucano e começou-se, mais recentemente, a se especular que Geraldo Alckmin, um dos políticos mais conhecidos e vitoriosos do PSDB, poderia ser candidato a vice-presidente na chapa encabeçada por Luiz Inácio Lula da Silva. Essa perspectiva aumentou quando o ex-governador se desfiliou do PSDB e, dias após, encontrou-se com o ex-presidente num jantar marcado por falas de união em torno da reconstrução democrática do país.
Como Lula e Alckmin já estiveram em lados opostos em eleições passadas, disputando diretamente entre si, alguns questionam se a união entre eles neste momento seria contraditória. De fato, não podemos esquecer que ambos já trocaram farpas em eleições anteriores, o que faz parte do jogo democrático. Entretanto, isso por si só não inviabiliza eventual chapa entre ambos, já que a despeito de algumas divergências ideológicas, tanto Lula quanto Alckmin têm endossado um discurso em defesa da democracia, tão atacada durante o atual governo.
Atualmente, diferentemente de outrora, os golpes de Estado ocorrem, em sua maioria, não mais pela via militar. Como bem lembram Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, dois conceituados professores de Harvard e autores do célebre livro “Como as democracias morrem”, nos tempos atuais, as rupturas democráticas mais usuais se dão por aqueles que, após eleitos pelo regime democrático, utilizam-se, sub-repticiamente, dos mecanismos legais para desestabilizar as instituições, desprezar as regras do jogo democrático, perseguir opositores e a imprensa.
Nesses momentos em que a democracia está em risco, como quando o presidente insinua que poderia impedir as eleições caso não houvesse voto impresso ou quando instiga o ataque às instituições, por exemplo, aqueles que têm apego à democracia devem ter o gesto de grandeza de, ainda que temporariamente, abrir mão de certas divergências para se unir em defesa da democracia, apresentando uma alternativa viável para se opor à ameaça autoritária.
Por isso, vejo uma eventual chapa Lula-Alckmin não como contraditória, mas uma verdadeira coalizão em defesa dos valores democráticos, a exemplo do que ocorreu nas eleições passadas nos Estados Unidos, quando muitos republicanos decidiram apoiar Biden: um gesto de grandeza democrática e de preocupação com a democracia do país.
Se realmente prevalecer a aliança entre Alckmin e Lula, será um sinal de amadurecimento da democracia brasileira, que estará se movimentando para afastar a ameaça de autoritarismo e de retrocesso que representa Bolsonaro. Não é a toa que já temendo a vitória de Lula no 1ª turno, o Palácio do Planalto e os bolsonaristas já antecipam estratégia digital contra a chapa com Alckmin, reiterando o modus operandi de Bolsonaro nas eleições de 2018.