Agentes públicos que liberaram protocolos para uso de cloroquina e ivermectina em pacientes com diagnóstico de Covid-19 no Sistema Único de Saúde deveriam responder por atos de improbidade administrativa. Isso porque, diversos estudos científicos foram realizados e não trouxeram nenhum indicativo robusto da eficácia de um ou de outro dos medicamentos citados no combate ao coronavírus.
Na verdade, alguns ensaios clínicos foram categóricos ao destacar que, além de não apresentar eficácia terapêutica, no caso da cloroquina, os efeitos colaterais da droga podem agravar o quadro do paciente.
Assim, os agentes públicos que editaram tais protocolos criaram gastos desnecessários com medicamentos ineficazes contra o coronavírus. Os recursos gastos com a produção de estoques de cloroquina poderiam muito bem ter sido empregados na produção de medicamentos utilizados nas UTIs mas que estão em falta em quase todo o país.
Além das despesas desnecessárias, retirando recursos que poderiam ser utilizados em ações verdadeiramente efetivas no combate à pandemia, esses agentes públicos colocam em risco a vida de inúmeros pacientes, já que os efeitos colaterais são amplamente comprovados, enquanto a eficácia terapêutica tem sido reiteradamente rechaçada por diversos estudos ao redor do mundo.
No caso do prefeito de Vitória, Luciano Rezende, que até então andava um pouco sumido, a situação é ainda mais lamentável. Isso porque, além de ser político, Rezende é médico por formação. Depois da liberação do protocolo para o uso de medicamentos ineficazes em pacientes com coronavírus, o prefeito de Vitória saiu com a reputação bastante abalada ao apelar ao mesmo populismo de Bolsonaro em torno da cloroquina.
Em vez de liberar o uso de medicamentos ineficazes e que podem causar graves efeitos colaterais aos pacientes, por que não buscar repor o estoque de medicações em falta, distribuir cloroquina aos pacientes com lúpus, ou, ainda, por que não intensificar as quase inexistentes fiscalizações contra aglomerações, contra a falta de uso de máscaras e contra o descumprimento dos protocolos já estabelecidos?
Parece ser mais fácil tentar desviar o foco e apelar ao populismo, criando uma falsa e leviana percepção de que haveria sim um medicamento capaz de destruir o coronavírus, quando, na verdade, não há! Com essa falsa expectativa a mensagem que se transmite à população é que não há motivo para preocupação, já que haveria a cura contra o coronavírus.
A propósito, Bolsonaro tem usado sua suposta infecção pelo coronavírus para continuar suas enganosas propagandas sobre a cloroquina. Como se a cloroquina fosse um analgésico, o presidente disse que se sentia melhor após tomar a primeira dose da droga. Puro charlatanismo. Talvez o objetivo seja desafogar os estoques encalhados de cloroquina, que custaram muito caro aos cofres públicos.
Se nenhuma das muitas pesquisas científicas confirmaram a eficácia terapêutica da cloroquina ou da ivermectina, em que se fundamentaram os agentes públicos que liberaram esses protocolos para a distribuição desses remédios? Se a intenção é fazer um experimento com a população, feriram normas bioéticas e jurídicas. Por certo, a medicina não aceita a tomada de decisões fundadas em achismo ou em teorias miraculosas, porque a vida é o bem maior.
O populismo em torno da cloroquina, a expectativa de curar o coronavírus com vermífugos e toda a onda de desinformação alertam para um dado importante: a política, ou melhor, a politicagem não pode transformar a medicina em curandeirismo. A medicina pauta sua atuação no saber científico, enquanto o curandeirismo, na fé de que forças misteriosas seriam capazes de curar qualquer enfermidade.