Em seu discurso na abertura da 76ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), o presidente Jair Bolsonaro manteve sua marca registrada: o apelo a uma falácia extremista e a utilização massiva de dados e informações falsas ou claramente distorcidas.
O discurso de Bolsonaro parece ter sido escrito no auge Guerra Fria, já que a todo tempo o presidente insiste em citar seus inimigos imaginários, dizendo que o Brasil estava à beira de um regime socialista. Numa espécie de esquizofrenia política com ideias delirantes, deu a entender que o governo que o antecedeu seria comunista, como se tivesse esquecido que chamou seu antecessor, o presidente Michel Temer, para escrever uma carta no afã de tentar pacificar os ânimos após o caos instaurado pelos protestos antidemocráticos que Bolsonaro convocou para o Dia da Independência.
Bolsonaro mentiu escancaradamente quando disse que respeita a Constituição. Parece ter olvidado dos incontáveis ataques que fez à divisão de Poderes, à democracia. Das inúmeras vezes em que incitou golpe militar para fechar o Congresso e o Supremo Tribunal Federal, de ter ameaçado não ter eleições no Brasil em 2022 e de não respeitar decisões judiciais.
Na ONU, Bolsonaro reconheceu que seu governo estimulou o uso de remédios ineficazes no combate à pandemia, um dos objetos da CPI da Covid no Congresso Nacional. Ao se referir aos medicamentos sem eficácia contra o coronavírus, o presidente disse não saber o motivo de “muitos países, juntamente com grande parte da mídia, se colocarem contra o tratamento inicial”.
Ora, o motivo é bem simples: não existe tratamento inicial. Todos os estudos científicos realizados ao redor do mundo demonstraram não só a ineficácia de remédios como a cloroquina, azitromicina e ivermectina no combate à Covid, bem como a chance de respostas negativas. Enquanto insiste em práticas de curandeirismo, o presidente não hesita em dizer que não se vacinou, como se o fato de não se imunizar fosse um troféu para ele.
A impressão que fica é que, vendo seus índices de popularidade despencarem em queda livre e sem conseguir oferecer soluções aos reais problemas do Brasil, Bolsonaro decidiu direcionar seu discurso a seus apoiadores que costumam ficar no cercadinho em frente ao Palácio da Alvorada. Em vez de fazer politicagem barata na ONU, o presidente deveria adotar um tom sério, de estadista, destinado a toda a comunidade internacional.
O resultado da presença de Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU foi catastrófico, envergonha o Brasil, já que o discurso extremista e negacionista do presidente coloca o país numa posição de ainda maior isolamento diplomático. Quem vai querer investir num país em que o chefe da nação não se envergonha de apelar ao negacionismo, à desinformação e ao extremismo ideológico? A situação econômica do Brasil tem um fator pesado chamado “fator Bolsonaro”.
Se os discursos da presidente Dilma Rousseff eram criticados pelos deslizes em oratória, a mesma crítica não pode deixar de ser feita aos do presidente Bolsonaro, com um agravante: por mais que não conseguisse concatenar bem as ideias, Dilma nunca desceu ao nível de um discurso fantasioso e vexatório como o de Bolsonaro. E olha que nunca votei na Dilma…
Bolsonaro é a personificação de como escolhas ou decisões políticas equivocadas podem levar o país ao isolamento internacional e a uma crise política, social e econômica sem precedentes.