Pouco mais de uma semana após anunciar o que se tornou popularmente conhecido como “tarifaço”, que impôs alíquota de 50% sobre produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos, Donald Trump prosseguiu sua sequência de investidas contra a soberania do Brasil, atacando até o Pix e a famosa 25 de Março. Embora tributos possam ter escopos parafiscais, neste caso específico, está cada vez mais evidente o intuito de interferir em assuntos internos da nação, usando a via tarifária como espécie de sanção.
Ainda que indiretamente, a imposição de nova tarifação sobre o Brasil possa guardar relação com interesses estadunidenses quanto aos rumos dos países-membros do Brics e às pressões das big techs. O fato é que, em suas falas, Donald Trump tem enfatizado ser “uma desgraça” o que fazem com Bolsonaro, dando a entender existir no Brasil um estado de exceção marcado por perseguições judiciais ao ex-presidente e seu círculo, o que não é verdade.
Ao traduzir tremenda demonstração de autoritarismo — confundindo decisões de Estado com posicionamentos meramente subjetivos —, Donald Trump incorpora o discurso criado pela extrema-direita para tentar fugir da punição estatal legítima e cabível contra atos que atentaram diretamente contra a democracia e as instituições. Bolsonaro e outras pessoas estão sendo julgadas no Brasil seguindo o devido processo legal, respeitados todos os direitos e garantias inerentes à ampla defesa e ao contraditório.
Enquanto Bolsonaro se diz apaixonado por Donald Trump, o estadunidense afirmou não ser amigo de Bolsonaro, o que não deve ser mentira. Trump não deve mesmo ser amigo de Bolsonaro, mas aprecia aquilo que ele representa: o autoritarismo, o politicamente incorreto, a sede de poder fantasiada de patriotismo.
Aliás, sobre patriotismo, todo o imbróglio envolvendo o “tarifaço” e seus motivos reais tem mostrado quem são os verdadeiros patriotas. Obviamente não são os que comemoraram decisão de outro país, injusta e ofensiva à nossa soberania, capaz de impactar o faturamento empresarial, o crescimento da economia nacional, gerando desemprego e prejudicando todos os brasileiros supostamente em prol de uma família, a do ex-presidente.
Por falar em economia, há não muito tempo, no auge da pandemia de Covid-19, muitos dos que diziam que o Brasil não podia parar — por serem contrários ao isolamento social — são os mesmos que hoje festejam o “tarifaço” de Trump por acharem que pode prejudicar Lula politicamente, ainda que à custa de uma possível piora econômica.
Contudo, a pretensão adversária de utilizar o episódio como marketing contra Lula parece surtir efeito inverso. Pesquisas recentes mostram que a avaliação negativa do petista perde fôlego, havendo a impressão de que Lula pode fazer dos limões uma limonada. Tanto que o verde-amarelo, antes restrito à extrema-direita, tem sido paulatinamente reintegrado a todo o espectro político.