Em diversas culturas ao redor do mundo, é comum que pessoas apostem em esportes e eventos em geral. O ato pode parecer inofensivo para a maioria, mas alguns desenvolvem um comprometimento considerável em seu comportamento de jogo, uma patologia já descrita na psiquiatria como transtorno do jogo ou ludomania. Esse quadro ganhou contornos ainda mais preocupantes com o avanço das populares bets no Brasil.
Legalizadas no final de 2018, as apostas esportivas só foram regulamentadas tardiamente, no final de 2023. Essa demora criou um ambiente propício a abusos, sem fiscalização adequada, garantia de integridade ou políticas de redução de danos à saúde mental. Os estragos se concretizaram: muitos apostadores adoeceram ou foram à falência, enquanto influenciadores e casas de apostas lucravam. As bets se tornaram uma versão modernizada e potencializada do jogo do bicho, empobrecendo usuários e abrindo novos nichos para ilícitos, sem que um incremento substancial na arrecadação pública fosse claramente evidenciado.
Em um movimento pioneiro e necessário, o Espírito Santo tornou-se um dos primeiros estados do país a oferecer atendimento público especializado e gratuito para dependentes de apostas e jogos online. A iniciativa, lançada em 26 de janeiro de 2026, é executada pela Subsecretaria de Políticas sobre Drogas (Sesd) por meio do Programa Rede Abraço, que já atendia mais de 3 mil pessoas por ano por dependência química.
O serviço, que atende pessoas a partir dos 14 anos, foca tanto a dependência instalada quanto os sinais iniciais de comportamento compulsivo. O atendimento inicial é presencial, sem necessidade de agendamento e é realizado por uma equipe multiprofissional. Como destacou o subsecretário Carlos Lopes, a criação do serviço acompanha mudanças no perfil de atendimento, tratando a “raiz emocional do problema” e oferecendo um “acolhimento humanizado”. O serviço é ofertado em três unidades do CAAD (Centro de Acolhimento e Atenção Integral sobre Drogas), localizadas em Vitória, Cachoeiro de Itapemirim e Linhares.
Esse pioneirismo capixaba chega em um momento crucial. Dados do SUS mostram um crescimento expressivo nos atendimentos por transtornos associados ao jogo: saltaram de 2.262 em 2023 para 3.490 em 2024, com 1.951 registros apenas no primeiro semestre de 2025. A ação do Espírito Santo coloca em prática, na esfera estadual, o reconhecimento de que a compulsão por jogos é, acima de tudo, uma grave questão de saúde pública que demanda intervenção especializada.
A regulamentação federal do setor, embora um passo importante, mostrou-se insuficiente e tardia para conter os danos. A demora transformou o setor em um espaço de empobrecimento e adoecimento. Nesse contexto, a iniciativa do Espírito Santo serve como um modelo urgente e concreto de redução de danos, indo além da lógica meramente arrecadatória e priorizando a proteção dos cidadãos.
O Congresso Nacional, que abriu caminho para a legalidade das apostas, tem o dever inadiável de criar marcos regulatórios robustos que incluam ampla fiscalização e a obrigatoriedade de políticas de saúde mental em todo o território nacional. Se não forem bem fiscalizadas pelo Estado, as bets têm, de fato, o potencial devastador de se tornarem uma espécie de “crack do século XXI”.
O Espírito Santo, ao agir onde a União foi lenta, mostra que é possível e necessário oferecer uma rede de apoio. Cabe agora ao poder público federal e aos outros estados seguirem esse exemplo e transformarem essa iniciativa pioneira em uma política nacional de proteção à vida.