Quem acompanha os trabalhos do legislativo municipal ou até mesmo pelas manchetes da mídia certamente cogitará que falta trabalho na Câmara Municipal da Capital. Se perguntarem o que de fato os nobres edis estão fazendo em prol da cidade, dificilmente haverá uma resposta.
Mesmo porque a maioria deles está mais preocupada com as eleições para deputado estadual ou visando a reeleição para a própria Câmara Municipal e, imbuídos desse interesse meramente pessoal, acabam abandonando pautas que realmente seriam úteis ao município.
Seguindo a trilha do extremismo político, na atual legislatura já houve denúncias de rachadinha, além de ataques aos servidores públicos, aos jornalistas e às minorias. O vereador Gilvan da Federal, por exemplo, usou o Plenário da Casa para incentivar a tortura, defendendo o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, responsável por inúmeros crimes no contexto da violência da ditadura militar, incluindo o estupro de mulheres grávidas em razão de divergências políticas.
Como quase todos os vereadores são da base de apoio ao prefeito, nem há que se falar que a Câmara Municipal cumpre seu papel de fiscalizar os atos do Executivo. À exceção de dois ou três vereadores, a maioria parece ter sido eleita tão somente para chancelar as escolhas do chefe do Executivo Municipal, por mais questionáveis que sejam.
Na última semana, mais uma vez, o legislativo municipal se tornou notícia em jornais de todo o Brasil após alguns vereadores, em tom desrespeitoso e jocoso, terem atacado a vereadora Karla Coser, que se posicionou contra o tratamento dado a uma menina vítima de estupro e que teve o direito ao aborto negado, ao arrepio da lei.
O presidente da Câmara Municipal, Davi Esmael, autor do projeto “Eu escolhi esperar”, que prevê abstinência sexual entre jovens, sem argumentos para rebater a vereadora, optou ao jogo baixo, chamando-a de “mulher que se faz de frágil e de coitada”, complementando que a vereadora não poderia se posicionar sobre o tema porque ela não seria mãe, ao contrário dele que é “pai de duas (crianças) de 11 anos”.
Os ataques levianos se robusteceram quando o vereador Luiz Emanuel Zouain, também sem argumentos para contradizer a vereadora, apelou à questão da idade, dizendo que ela, por ser jovem, seria sem noção e uma menina mimada: “Quem não tem noção aqui é você. Você não tem 60 anos como eu tenho para dizer isso. Quem é você, vereadora? A vida para você não serve para nada, você é uma menina mimada”.
Aficionado em invocar o PT e os comunistas contra tudo que lhe contrarie, principalmente para agradar ao eleitorado bolsonarista, Luiz Emanuel não parou por aí e complementou: “Eu fico me perguntando qual é o maior trauma para essa criança. É o filho deixar de nascer e ter retirado um filho? O trauma do estupro eu não estou discutindo, eu estou discutindo depois. Ela vai ter que conviver com o trauma de ter retirado um filho e eu quero saber quem é que vai cuidar disso? É o Estado do PT, do PSOL?”.
Percebe-se da fala de Luiz Emanuel e Davi Esmael que preocupação efetiva com a vida nada há, apenas mero proselitismo político, pura demagogia, assim como aqueles que se colocaram contra o direito ao aborto a uma criança que engravidou após um estupro. Dizem se preocupar com um feto, um embrião, mas não se compadecem com as mazelas da vítima: a criança estuprada. Tanto é que Luiz Emanuel não hesitou em falar que o trauma do estupro seria uma questão pormenor, que poderia ser discutida mais adiante.
Ora, como acreditar que esses vereadores se preocupam com a vida se eles minimizam o sofrimento de uma criança? Como conciliar o discurso deles a ações contrárias às populações de rua e às minorias? Cadê a coerência? Se realmente se preocupam com a possibilidade de um embrião vir a nascer com vida, por que não se sensibilizam com os que sofrem nas ruas e passam frio e fome?
Assim, fica claro que o foco é apenas a reeleição, do contrário, a atuação dos vereadores não se resumiria aos discursos de ódio e à entrega de títulos de cidadão, à escolha de nomes de rua e tudo aquilo que não agrega à cidade!