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Fake news tornam a catástrofe no Rio Grande do Sul ainda pior

Não se trata apenas de colocar em xeque a credibilidade das ações estatais ou de se opôr ao político A ou B. A mentira usada em tal ocasião cumpre um desserviço à coletividade

Publicado em 10 de Maio de 2024 às 01:40

Públicado em 

10 mai 2024 às 01:40
Caio Neri

Colunista

Caio Neri

caiocwneri@gmail.com

As fake news são chagas que ainda permanecem abertas no Brasil. As ondas de desinformação não pouparam a pandemia de Covid-19, tentaram descredibilizar as urnas eletrônicas e o processo democrático brasileiro, e, dessa vez, repetem-se em um momento que, além de esforços do poder público, demanda união da sociedade civil brasileira: a calamidade no Rio Grande do Sul.
Nas redes sociais, entre diversas postagens de conteúdo inverídico ou sem fundamentos, estão as do deputado federal Eduardo Bolsonaro, quando, a pretexto de criticar politicamente o governo federal, disse que a ajuda demorou quatro dias para ser enviada ao Rio Grande do Sul. Na mesma linha estão publicações do influenciador Pablo Marçal, citando que a secretaria da Fazenda do RS barrava os caminhões de doação, bem como, impedindo a distribuição de comida e marmitas. Além deles, o senador Cleitinho Azevedo teria replicado as afirmações desencontradas.
Dada a grande influência dessas e de outras personalidades desse espectro nas redes sociais, ao longo dos dias tais desinformações foram amplamente compartilhadas no submundo das redes sociais. Por conta disso, a Polícia Federal abriu um inquérito para apurar a divulgação de conteúdos falsos a respeito das enchentes no Rio Grande do Sul.
Vias alagadas após fortes chuvas no Rio Grande do Sul
Vias alagadas após fortes chuvas no Rio Grande do Sul Crédito: Divulgação / Governo do RS
Com razão a abertura dessa investigação. A veiculação de informações falsas num momento de calamidade pública tem maior reprovabilidade jurídica e moral porquanto atrapalha as missões de salvamento e as ações realizadas por pessoas bem-intencionadas e comprometidas com a vida alheia.
Não se trata apenas de colocar em xeque a credibilidade das ações estatais ou de se opôr ao político A ou B. A mentira usada em tal ocasião cumpre um desserviço à coletividade. A informação precisa pode salvar vidas de pessoas que estão em locais que devam ser evacuados, por exemplo. Afora tudo isso, chama atenção a tamanha falta de empatia que permeia a divulgação de desinformação num contexto em que mais de cem pessoas já perderam a vida e outros milhares estão sem acesso ao básico.
De fato, os dados do Portal da Transparência indicam que o município de Porto Alegre não destinou recursos ao item “melhoria no sistema contra cheias” presente em seu orçamento. As críticas à atuação do poder público, no entanto, devem se dar com vistas ao aprimoramento dos mecanismos de prevenção a catástrofes e calcadas em informações reais.
Todavia, se, por um lado podem ter faltado recursos na prevenção, por outro, não se pode afirmar que as três esferas de governo estejam inertes, muito menos que estejam elas dificultando a chegada de socorro aos que necessitam.
O Estado brasileiro tem dado mostras de que tem capacidade de resposta nesses estados de crise. Inclusive, outras unidades da federação, como o próprio Espírito Santo, têm auxiliado aos gaúchos atingidos pelo caos. Tão importante quanto isso é a constatação de que a sociedade brasileira, em sua imensa maioria, compadece-se com o outro e se coloca à disposição de ajudar seu semelhante.

Caio Neri

E graduado em Direito pela Ufes e assessor juridico do Ministerio Publico Federal (MPF). Questoes de cidadania e sociedade tem destaque neste espaco.

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