A guerra deflagrada por Vladimir Putin tem exposto mais um ponto de convergência entre os bolsonaristas e aqueles que se autoproclamam de “extrema esquerda”. A ala brasileira mais radical à direita flerta com Putin e a direita russa, enquanto aqueles que estão no extremo oposto, no espectro da esquerda, insistem em tentar colocar a culpa pela guerra na Ucrânia na conta da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e dos Estados Unidos.
Há de se dizer, todavia, que tanto na direita quanto na esquerda, não há unanimidade em torno de Putin, mas chama atenção os posicionamentos daqueles que tentam defender o autocrata russo nas redes sociais.
Os bolsonaristas pró-Putin, muito ativos nas redes sociais, valem-se do típico modus operandi de seu grupo: disseminar notícias falsas para tentar confundir a população. Disseram, por exemplo, que os ataques vis a civis ucranianos teriam partido do próprio exército ucraniano, algo que foge a qualquer pensamento racional. Percebe-se que não apenas na Rússia há pessoas dispostas a manipular a verdade dos fatos para justificar seu ponto de vista, por mais absurdo que seja.
Noutra banda, ainda na defesa das agressões de Putin, a esquerda mais radical adota outra tática perigosa: desviar o foco dos fatos atuais com base em acontecimentos pretéritos. Atrelados a um discurso conhecido em torno das “políticas imperialistas do Ocidente”, alguns militantes esquerdistas parecem ter ficado presos no tempo da Guerra Fria.
Para contornar as críticas a Putin, essa ala da esquerda tenta trazer à tona histórico de operações militares de inimigos da Rússia, como se eventual ofensa de outrora permitisse ou legitimasse a guerra que Putin declarou à Ucrânia. Trata-se de uma falácia retórica reprovável que parte de um pressuposto de que os erros de outrem justifiquem as agressões de seus aliados. Noutras palavras o que eles querem dizer é o seguinte: se os Estados Unidos atacaram o Iraque e o Vietnã, por exemplo, por simetria, os russos também teriam o direito de atacar a Ucrânia.
A esquerda radical insiste em culpabilizar a Otan, no afã de dissuadir que a paz mundial só será alcançada quando a organização for extinta, partindo do pressuposto que Putin apenas quer defender seu país das ameaças “imperialistas estadunidenses”. Tentam convencer que a Otan está tentando expandir seus domínios, mas fecham os olhos para as investidas de Putin contra países vizinhos.
Não há nada de errado, ilícito ou ilegítimo que a Ucrânia queira aderir à Otan ou fazer parte da União Europeia. Trata-se de um país independente e que, justamente por isso, tem o direito de se autogerir conforme as escolhas democráticas de seu próprio povo.
Errada está é a Rússia que para expandir seus domínios territoriais, políticos e econômicos decidiu invadir, sem qualquer motivo, uma nação independente que começou ousar discordar das políticas totalitárias do Kremlin.
Os esquerdistas que ignoram as vidas ceifadas na Ucrânia tratam a guerra como legítima ao argumento de que a Rússia estaria preocupada com sua segurança e suas fronteiras, mas, se assim fosse, a Ucrânia também não teria o direito de se preocupar com sua segurança e suas fronteiras? Nesta guerra quem invadiu território alheio para deixar um cenário de terra arrasada não foi a Ucrânia ou a Otan, foi a Rússia que fez a escolha pelo conflito.
A proximidade entre bolsonaristas e esquerdistas no âmbito da guerra na Ucrânia tem, ainda, o risco de confundir o eleitorado brasileiro num momento em que se busca união de forças para derrotar o atual governo.
Os extremos estão errados! A prioridade neste momento deveria ser o resguardo da vida e da paz em vez de ficar tentando encontrar motivações para mais um conflito armado. A guerra não se justifica, e Vladimir Putin deve responder por suas ações.