Nesta semana, Bolsonaro disse que as questões do Enem “começam agora a ter a cara do governo”. Fica a pergunta, qual será a cara do Enem? Admitirá ideias absurdas como o terraplanismo ou se guiará por uma linha negacionista e anticientífica? Imagine se a mesma afirmação fosse feita durante os governos do PT...
A fala que demonstra uma tentativa de intervenção ideológica na prova do Enem ocorreu justamente na semana da proclamação da República. E, como se sabe, o termo “república” deriva da expressão latina “res publica”, traduzida como “coisa do povo”, representando a forma de governo em que o Estado volta-se a atender aos anseios gerais dos cidadãos, não para privilegiar certo grupo em detrimento de outros.
O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi criado em 1998, no governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso, para avaliar o desempenho escolar dos estudantes ao término da educação básica. Desde 2009 o exame vem sendo utilizado como mecanismo de acesso a diversas instituições de ensino superior.
Assim, fica claro que o Enem não é de um governo nem pertence a um ou outro grupo político-ideológico. Trata-se de um mecanismo de Estado, por isso, são totalmente indevidas quaisquer intervenções ideológicas na prova, em especial por aqueles que, como o presidente da República, não têm a mínima formação acadêmica para discutir ou tentar vetar questões que contrariem suas opiniões pessoais.
Apesar de Milton Ribeiro, ministro da Educação, negar interferências no conteúdo da prova do Enem, ele chegou a asseverar que questões de “determinados guetos” não deveriam aparecer no Enem, o que é próprio daqueles vocacionados à censura e pouco providos de tolerância à diversidade. Tanto é verdade que às vésperas da realização do exame, dezenas de servidores do Inep pediram exoneração do órgão, denunciando assédio moral em decorrência das interferências político-ideológicas na prova do Enem.
A ideologização do Enem pela interferência do presidente expõe que “escola sem partido” nunca foi a verdadeira pretensão daqueles que supostamente a buscavam. Fica claro que aqueles que defendem a dita “escola sem partido”, a bem da verdade, não querem uma escola sem partido, mas uma escola com seu partido, no caso, a extrema direita.
Como se a escola fosse obrigada a adotar um ou outro pensamento ideológico, em vez de ter a liberdade de cátedra que a docência clama. Confunde-se a educação familiar com a educação escolar. “Escola sem partido” é uma falácia contemporânea como estratégia de fuga de debates sensíveis e que a extrema direita associa, erroneamente, à esquerda ou ao comunismo, tais como: direitos humanos, igualdade entre homens e mulheres, respeito e tolerância à diversidade, enfim, tudo que diga respeito à verdadeira civilidade.
As tentativas de intervenção ideológica nas questões do Enem apontam que Jair Bolsonaro faz aquilo que tanto acusa seus oponentes de fazerem: apropriar-se da máquina pública para satisfação de interesses nada republicanos! O Enem não tem dono, não é do partido A ou do partido B. Eles não são os donos do poder ou do Brasil, eles são exercentes do poder! O poder pertence ao povo!