Na madrugada da última terça-feira (16), um grupo com 25 venezuelanos foi deixado na rodoviária de Vitória, após terem sido trazidos em um ônibus clandestino fretado pela prefeitura de Teixeira de Freitas, interior da Bahia. Além disso, outro agravante é que os venezuelanos que foram deixados em Vitória são indígenas e têm dificuldade para se comunicar em português, havendo crianças entre o grupo.
Questionado pelo fato de ter enviado os venezuelanos a Vitória de modo duvidoso, o município de Teixeira de Freitas afirmou que realizou o acolhimento inicial, todavia, “foi facultado a eles onde queriam ir”, que eles seriam adultos, bem como que teria uma faculdade do município de Vitória para acolher ou não tal população.
Cediço que a crise migratória venezuelana deve-se tanto à precariedade das condições do país de origem quanto ao refúgio político, não sendo, portanto, fato novo. Tanto é que, no ano passado, um grupo de 50 waraos (etnia venezuelana) ficou perambulando pelas ruas do Estado. No entanto, o caso mais recente chama atenção pela forma como os imigrantes foram tratados, ou melhor, destratados.
É leviano responsabilizar os venezuelanos por terem parado em Vitória, como se a escolha coubesse inteiramente a eles. Nas condições em que se encontram, são pessoas extremamente vulneráveis e com pouco poder de escolha, sendo a prioridade, por certo, a sobrevivência com mínimas condições de vida digna. Tal fato, a bem da verdade, reflete como as questões sociais são tratadas no Brasil, onde se pensa mais em combater os pobres do que exterminar a pobreza.
Foi a mesma coisa com os venezuelanos. Ao que tudo indica, não foi um espírito solidário que os trouxe ao Espírito Santo, mas, uma vontade de fazer uma espécie de faxina social onde inicialmente estavam refugiados. Assim, eles acabaram praticamente descartados e, sem efetivo poder de escolha, tiveram de vir para uma cidade estranha a eles, sem qualquer intercâmbio de informações entre os entes públicos envolvidos. Contrário fosse, eles não teriam sido deixados de modo clandestino nas proximidades da rodoviária em plena madrugada.
Tentou-se empurrar a problemática social da crise migratória venezuelana para que outro município se responsabilizasse, uma tremenda irresponsabilidade e sintoma de carência de empatia com nossos semelhantes.
Pois bem. A responsabilidade daqueles que enviaram essas pessoas para cá deve ser apurada. No entanto, o foco neste momento é dar o acolhimento que essas pessoas não receberam do município que as despachou como se mercadorias fossem.
Se mesmo com todas as dificuldades que nosso país passa, essas pessoas se viram obrigadas a buscar socorro aqui, não é difícil imaginar o quanto estavam sofrendo para terem que deixar sua terra natal, onde está sua história, sua cultura, seus familiares e tudo aquilo que conseguiram construir. Por isso, o mínimo que merecem é um acolhimento digno, assim como gostaríamos de receber se estivéssemos em situação parecida.