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Coronavírus

Pandemia escancarou ainda mais a crise de humanidade que vivemos

Aqueles que saúdam o ato repugnante e criminoso de deputados do ES, justificando que os parlamentares apenas cumpriam seu dever de fiscalizar, contraditoriamente, são os mesmos que endossam movimentos antidemocráticos

Publicado em 19 de Junho de 2020 às 05:00

Públicado em 

19 jun 2020 às 05:00
Caio Neri

Colunista

Caio Neri

caiocwneri@gmail.com

Serra - ES - Hospital Dório Silva
Hospital Dório Silva: grupo de deputados "invadiu" a unidade na sexta-feira (12) Crédito: Vitor Jubini
Em tempos de pandemia, cada vez mais clara uma crise de humanidade. Nos momentos de adversidade, como o presente, natural seria a união de pessoas e instituições em torno do objetivo comum de dar forças uns aos outros, socorrendo aos mais vulneráveis e assumindo a bandeira inarredável da defesa da vida. Porém, o que se tem visto é uma crise de humanidade sem precedentes, marcada por uma falta expressiva de empatia, é dizer, incapacidade ou falta de interesse em colocar-se no lugar do outro (ao menos em tese) e sensibilizar-se com as dores, dilemas e mazelas alheias.
Desde o início da pandemia, valendo-se de sua rede orquestrada de fake news, bolsonaristas dizem que muitas das mortes atribuídas ao coronavírus são mentira, insuflando os incrédulos a abrirem caixões. São adeptos de Joseph Goebbels (ministro da Propaganda de Adolf Hitler), que disse que “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”.
Na última semana, um senhor burocrata invadiu um espaço onde estava sendo realizado um ato em memória às vítimas da Covid-19, no Rio de Janeiro, chutando e derrubando as cruzes que simbolizavam as vidas que foram perdidas para o coronavírus. O ato era sim um protesto, mas, acima disso e mais que isso, era uma homenagem aos que se foram.
Porém, para o senhor que invadiu e derrubou as cruzes, o ato foi tratado como uma tentativa de disseminar o “pânico” e era “protesto de esquerda”, como se a sensibilidade com a dor dos entes enlutados fosse uma bandeira política, deixando escancarado um deletério déficit de empatia que permeia a extrema direita.
Ainda na última semana, o presidente Jair Bolsonaro, repetindo a escalada de ódio, conclamou seus seguidores a invadirem hospitais que tratam doentes com Covid-19 para flagrarem hipotéticos leitos em desuso, já que há entre eles uma teoria da conspiração constante que aponta que todos aqueles que pensam diferente são vocacionados ao mal. Uma espécie de delírio persecutório, paranoia e desconfiança generalizada a tudo que não coincide com suas opiniões pessoais.
Um dia após a convocação de Bolsonaro, um grupo de deputados estaduais do Espírito Santo decidiu invadir um hospital que cuida de doentes com a Covid-19. Invadir hospitais sob o pretexto de fiscalizar é fazer politicagem com o sofrimento alheio, é puro populismo barato. O que os deputados poderiam descobrir numa “fiscalização in loco”?
Não seria melhor eles cuidarem de fazer uma auditoria nos gastos, analisarem os procedimentos licitatórios e aprovarem a proposta de reduzir seus próprios salários, caso a intenção fosse mesmo de fiscalizar e contribuir? Os deputados tinham o hábito de visitar hospitais e outros estabelecimentos públicos antes da pandemia?
Os deputados Capitão Assumção (Patriota), Carlos Von (Avante), Danilo Bahiense (PSL), Lorenzo Pazolini (Republicanos), Torino Marques (PSL) e Vandinho Leite (PSDB) apresentaram algum relatório das constatações da invasão? Não apresentaram nada. Não foram fiscalizar. O intento era fazer propaganda, já que a maioria deles quer disputar as eleições municipais. Encontraram os leitos lotados, pacientes lutando pela sobrevivência e profissionais que não medem esforço para salvar vidas. Os deputados desrespeitaram pacientes, familiares e profissionais, colocando em risco a saúde deles e de outras pessoas.
Aqueles que saúdam o ato repugnante e criminoso dos deputados, justificando que os parlamentares apenas cumpriam seu dever de fiscalizar, contraditoriamente, são os mesmos que endossam as fileiras de movimentos inconstitucionais e antidemocráticos que defendem o fechamento do Congresso Nacional (isto é, Poder Legislativo) e do Supremo Tribunal Federal (ou seja, Poder Judiciário).
Como consignado pelo padre Kelder Brandão Figueira, em nota de repúdio à invasão: “o enfrentamento a uma pandemia, a pior dos últimos 100 anos, exige temperança, solidariedade, empatia e responsabilidade. É preciso, neste momento, que as forças políticas, embora antagônicas, se somem acima de rixas partidárias ou interesses eleitoreiros para um esforço conjunto na direção única de salvar vidas”.

Caio Neri

E graduado em Direito pela Ufes e assessor juridico do Ministerio Publico Federal (MPF). Questoes de cidadania e sociedade tem destaque neste espaco.

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