A menstruação faz parte do ciclo reprodutivo feminino. Mensalmente, o útero conta com o endométrio para aninhar um possível embrião. Porém, quando não ocorre a fecundação, o endométrio, um tecido que reveste internamente o útero, acaba por ser naturalmente descartado pelo corpo, ocorrendo a menstruação. Ou seja, a menstruação é algo natural, trata-se da descamação do endométrio.
Entretanto, ainda assim, em pleno século 21, muitos são os tabus e as dificuldades vivenciadas por garotas e mulheres em idade reprodutiva, resquícios de uma sociedade tipicamente construída com uma visão machista. Se não bastassem os transtornos que acompanham a menstruação (como dores pelo corpo, as famosas cólicas, náusea, indisposição, irritabilidade e outras mudanças significativas de humor), as mulheres ainda sofrem com mais uma forma de pobreza: a pobreza menstrual.
De modo parecido com as outras categorias de pobreza, a pobreza menstrual interfere diretamente na qualidade de vida da mulher, a despeito de a saúde e o bem-estar serem inequívocos direitos da personalidade, inatos à condição humana. Estima-se que 30% da população brasileira menstrua regularmente e o mais alarmante é que uma em cada cinco adolescentes não tem acesso ou enfrenta sérias dificuldades na compra dos itens básicos de higiene feminina, como os absorventes.
Até mesmo entre o público adulto há muita vergonha ao se abordar o tema da menstruação, o que ganha ainda mais relevância quando se trata de garotas adolescentes. Muitas meninas em idade fértil acabam por abandonar a escola e até mesmo outras atividades usuais, já que não têm como comprar absorvente e ficam no receio de menstruar. A pobreza menstrual leva muitas meninas ao isolamento, afasta-as de oportunidades e dificulta o acesso aos serviços especializados de atenção à saúde da mulher.
Para a Organização das Nações Unidas (ONU), trata-se de uma questão de saúde pública e de direitos humanos o acesso à higiene menstrual. No entanto, esse direito não tem sido alcançado por todas as mulheres, principalmente quando se leva em consideração a retomada da alta inflacionária no Brasil. Se muitas pessoas estão enfrentando graves obstáculos para comprar comida, pagar o gás ou a conta de energia elétrica, muito maior é o abismo que separa as meninas pobres de um pacote de absorvente.
Diante desse cenário, tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei nº 1.702/2021, cujo objetivo é instituir a Política de Conscientização acerca da Menstruação e de Universalização do Acesso a Absorventes Higiênicos no âmbito do Sistema Único de Saúde (Menstruação sem Tabu). Em Vitória, desde o ano passado, há a lei nº 9.613, de autoria do ex-vereador Roberto Martins, que dispõe sobre o fornecimento de absorventes menstruais nas escolas públicas do município, o que foi um grande avanço civilizatório na busca da dignidade.
Todavia, como as escolas permaneceram fechadas por um bom tempo durante a pandemia, as vereadoras Camila Valadão e Karla Coser enviaram uma indicação à prefeitura da Capital para que absorventes fossem distribuídos com as cestas básicas àquelas famílias em situação de vulnerabilidade social.
Aliás, falando nas vereadoras Camila Valadão e Karla Coser, elas têm sido provas vivas de que, muitas vezes, as vozes machistas querem calar as mulheres e diminuir a importância do papel feminino na vida pública e na política.
Muito provavelmente, se nós homens também menstruássemos, seria mais fácil o acesso a itens como absorventes, talvez até mesmo com isenções tributárias. Saúde não pode ser objeto de tabu!