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Obras sociais

Solidariedade ao Padre Júlio Lancellotti

Essa série de proibições causa ainda mais estranheza quando se dirige a um homem de fé que tem direcionado seu ministério à prática do bem e da caridade

Publicado em 26 de Dezembro de 2025 às 04:00

Públicado em 

26 dez 2025 às 04:00
Caio Neri

Colunista

Caio Neri

caiocwneri@gmail.com

Pouco dias antes das celebrações natalinas, a Arquidiocese de São Paulo determinou a suspensão das transmissões online e das redes sociais do Padre Júlio Lancellotti, uma das vozes mais incisivas em defesa dos mais vulneráveis na sociedade brasileira. Essa medida lamentável, imposta pelo cardeal Dom Odilo Scherer, a pretexto de proteger o clérigo, traduz uma tentativa de silenciar o sacerdote que, há quatro décadas, cumpre um dos maiores mandamentos cristãos: o amor ao próximo, sobretudo àqueles marginalizados socialmente.
No Brasil, uma nação rica, porém historicamente marcada por gravíssimas desigualdades, a popularização do termo "aporofobia" e a conscientização sobre esse fenômeno deve-se muito ao incansável trabalho do religioso, da Pastoral do Povo da Rua, de São Paulo. Figura de grande alcance nas plataformas digitais, ele denunciava constantemente como certos indivíduos, órgãos públicos e, até mesmo, instituições religiosas adotam mecanismos e táticas para impedir a aproximação e a permanência de pessoas em situação de rua em logradouros públicos, uma verdadeira tentativa de promover uma “faxina social”. O padre chegou a compartilhar em seus perfis a imagem de uma padaria em Vitória que orientava seus clientes a não contribuírem com essa população por “motivos de força maior”.
Como reconhecimento pelo trabalho prestado, foi sancionada em 2022 a lei nº 14.489, não ao acaso batizada como Lei Padre Júlio Lancellotti, que proíbe a chamada arquitetura hostil em espaços livres de uso público.
A determinação imposta ao religioso pela instância eclesiástica paulistana contrasta frontalmente com a fala do Papa Francisco quando, em discurso no Vaticano, aludindo ao telefonema que fez ao sacerdote brasileiro, afirmou que o Padre Júlio é “mensageiro de Deus”.
Essa série de proibições causa ainda mais estranheza quando se dirige a um homem de fé que tem direcionado seu ministério à prática do bem e da caridade, enquanto muitos outros utilizam-se indevidamente do nome de Deus na busca de interesses meramente particulares e terrenos.
Padre Júlio Lancellotti, da Pastoral do Povo da Rua
Padre Júlio Lancellotti, da Pastoral do Povo da Rua Crédito: Reprodução/Instagram @padrejulio.lancellotti
E essa, lamentavelmente, não foi a primeira ocasião em que, por razão de sua atuação, o Padre Júlio esteve de alguma forma cerceado ou perseguido. Há pouco mais de um ano, o clérigo chegou a ser alvo da possível abertura de uma Comissão de Investigação Parlamentar na Câmara Municipal de São Paulo em razão das obras sociais que espontaneamente realiza como manifestação de sua fé cristã e solidariedade humana genuína.
Assim como desejou o Papa Francisco, estimo que o Padre Júlio Lancellotti, mesmo diante de todas as dificuldades e obstáculos recentes, não desanime e permaneça firme em sua missão junto aos pobres, os oprimidos e os invisíveis de nossa sociedade.

Caio Neri

E graduado em Direito pela Ufes e assessor juridico do Ministerio Publico Federal (MPF). Questoes de cidadania e sociedade tem destaque neste espaco.

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