Na última semana, a comunidade acadêmica da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) foi às urnas para a indicação de um novo reitor para a universidade. Apesar de a chapa composta pelas professoras Edinete Rosa e Maria Lúcia Garcia ter tido a maioria dos votos absolutos (4.044 – cerca de 54,3%), foi declarada vencedora a chapa formada pelos professores Eustáquio de Castro e Sônia Lopes (com 3.390 votos). Isso porque, na disputa eleitoral para reitor da Ufes, os votos não têm o mesmo peso, variam conforme a classe à qual pertença o eleitor.
Em percentuais, o resultado final foi calculado seguindo uma resolução da própria Ufes, considerando a ponderação de 1/3 (um terço) para a categoria dos docentes, 1/3 (um terço) para a categoria do corpo discente e 1/3 (um terço) para a categoria dos técnicos administrativos. Isso faz com que haja uma grande disparidade de representatividade dentro da universidade, já que o número de alunos é bem maior que o total de professores e demais servidores aptos a votar.
Na prática, o voto de um aluno tem pouco peso na escolha para reitor da Ufes, já que as demais categorias, apesar de serem numericamente muito inferiores, representam o maior peso dado aos votos. Daí a explicação para a chapa mais votada não ter sido aquela declarada como vencedora no processo de indicação de novo nome para a reitoria. Ainda que todos os alunos comparecessem às urnas, a vontade deles seria indiferente para a formação do resultado, que depende dos votos de professores e servidores.
Essa forma de contabilizar os votos para reitor da Ufes, conquanto que sob uma justificativa de paridade, muito lembra o cenário da França, que, no final do século XVIII – durante o chamado Antigo Regime –, era governada por Luís XVI. No Estado francês absolutista, vigorava um regime estamental fechado e rígido, composto por nobreza, clero e a população em geral.
Nas votações, enquanto clero e nobreza tinham dois votos, aos demais, era franqueado apenas um, de modo que sempre prevaleciam as vontades e decisões do clero e da nobreza. Foi apenas com a Revolução Francesa que esse cenário começou a mudar.
Voltando à Ufes, talvez a falta de peso ao voto dos estudantes seja uma das razões para alta abstenção desse público na votação. Afinal de contas, se o voto dos estudantes é quase insignificante para influir no resultado, não há estímulo para que esse público opine.
O resultado do mais recente processo de pesquisa eleitoral na Ufes reforça a necessidade de rediscussão dos moldes como ocorre esse procedimento. Por mais que seja importante assegurar paridade às decisões, lado outro, não se pode abandonar, por inteiro, a vontade da maioria.