Saudades de quando a polarização política no Brasil era protagonizada pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) e pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Apesar de os partidos serem veementes e ferrenhos adversários, entre o final da década de 1990 e o início dos anos 2000, por maior que fosse a disputa, o debate se dava em tom minimamente respeitoso entre ambos os lados.
Desinformação sempre existiu na sociedade, porém, àquela época, as fake news não eram uma estratégia de campanha tão articulada como nas duas últimas eleições presidenciais. Talvez porque ainda não existissem as redes sociais, que embora tenham democratizado o acesso à informação, dada a falta de maior regulamentação, têm se mostrado prejudiciais à democracia, haja vista que turvam o horizonte de escolha do eleitor.
Nos governos de Fernando Henrique Cardoso os petistas o acusavam de ser neoliberal, porém, a gestão Bolsonaro foi além, indo a um patamar de anarcocapitalismo (ou práticas vulgarmente conhecidas como “passar a boiada”). Por outro lado, para os tucanos que tanto criticavam o populismo de Lula, Bolsonaro soube se mostrar ainda mais populista, na pior conotação da palavra.
PSDB e PT foram peças fundamentais no processo constitucional e na redemocratização do Estado brasileiro, cuja história mostra que os períodos autocráticos ou ditatoriais foram bem mais duradouros que as épocas marcadas por democracia.
FHC e o PSDB deixaram como legados ao país o Plano Real e, com ele, a melhoria da economia e o controle da hiperinflação. A despeito das críticas, faz parte da herança tucana a privatização de empresas públicas, medida fundamental para o desenvolvimento de setores como o das telecomunicações que, aos poucos, foi se tornando mais acessível aos mais pobres.
Já os governos do PT, com a economia estabilizada, tiveram condições de ampliar políticas públicas, algumas delas iniciadas no governo antecessor, como o Bolsa Escola e programas como o Vale Gás que, reunidos, foram rebatizados de Bolsa Família. Pôde-se observar uma importante redução da miséria e da fome no país. Sem esquecer-se das relevantes ações para promover o acesso à educação superior, como o Reuni e o Prouni.
À época dos embates diretos entre tucanos e petistas, opiniões distintas não tornavam inimigo aquele que pensa diferente. Divergir prescindia de recorrer à mentira como forma de convencimento. Mesmo porque o dissenso é bem-vindo no espaço democrático. Debater faz parte da política.
Inclusive, o respeito entre FHC e Lula é tão grande que, mesmo em posições políticas distintas, um se compadeceu da dor do outro quando cada um deles perdeu sua ex-esposa (Ruth Cardoso e Marisa Letícia).
Mas o PSDB ao qual me refiro praticamente não é o mesmo em essência. Após 2016, quando o Bolso-Dória levou o PSDB a ceder o protagonismo para Bolsonaro, o partido foi migrando do centro para a direita e, rapidamente, perdeu espaço no tabuleiro político.